O homem jamais soube exercitar uma convivência perfeitamente harmônica e não perde ocasião de revelar o seu instinto de agressividade. O enredo da novela Avenida Brasil, envolvendo as personagens Nina e Carminha, baseia-se num explosivo sentimento de vingança, alimentado pela primeira que se vê prejudicada pela segunda.
A temática da vindita, aliás, sempre esteve presente na arte e na literatura como que refletindo esse lado da natureza humana.
Assim, vingança a temos nas tragédias shakespearianas, como, por exemplo, Hamlet vingando a morte do próprio pai; nos famosos filmes de cowboy imortalizados por John Wayne; como a encontramos no cangaço. Diz-nos a história que a vingança foi a justificativa da campanha violenta do famoso líder bandoleiro Lampião que atuou no nordeste brasileiro na década de 1920. Segundo dizem os estudiosos, Lampião tornou-se cangaceiro para vingar-se de atroz perseguição policial contra seus familiares.
Na história da Humanidade, o sentimento de vingança, de desforra, sempre fez parte da reação de quem se sente prejudicado por alguém. Destarte, para possibilitar-se o convívio, isto é, a vivência em comum, fez-se necessária a criação de normas, de critérios capazes de garantirem o respeito recíproco. Dos usos e costumes surgiram as leis, a expressão do direito consuetudinário, cabendo lembrar do código de Hamurábi, um dos mais antigos conjuntos de leis a garantir “que o forte não prejudicasse o mais fraco, que se resolvessem todas as disputas e se saneassem quaisquer ofensas”. A Pena de Talião, a recomendar o “olho por olho, dente por dente”, dizia que o agredido podia agredir de igual maneira. Outros povos adotaram, mutatis mutandis, o mesmo critério. Por exemplo, entre os orientais a prática de decepar-se a mão do apanhado em ação de roubo, ou matar-se o parente do assassino.
Como estamos acostumados ao mal, acreditamos que, agredidos, assiste-nos o direito de revidar. Entretanto, nosso Mestre Jesus, vivendo entre Judeus que seguiam a Torá irrestritamente, mostrou-nos que o sentimento de vingança é incompatível com a Bondade Divina. Vingar-se é nivelar-se ao agressor.
Quantos exemplos não nos legou o Meigo Rabí da Galileia, realçando-nos o benefício do perdão? Diante da mulher adúltera, por exemplo, Ele não condenou. Convidou-nos a todos ao perdão, sem conivência com o erro. Disse à mulher: “Vai e não peques mais.”
De outra feita aconselhou; “se te baterem na face direita, oferece também a esquerda”. É a apologia da covardia? Evidentemente que não! Mas, apologia da coragem! A coragem moral de oferecer-se a outra face. Disse, ainda, o Mestre: “Se te pedirem a túnica, oferece, também, a capa.” Portanto, de acordo com o Evangelho de Jesus, jamais a vingança, mas, a superação do automatismo do mal pelo automatismo no bem.
Felipe Salomão
Bacharel em Direito e diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.