Aos poucos, dia a dia, o perigo dofuturo se resumia àquele de todos os mortais: o incidente, o inesperado que machuca o corpo. Na roça vinha em forma de ataque de peçonhas, doenças agudas, o corte fundo no capim-gordura... Nem havia como mensurar. Mas também aos poucos, dia a dia, Gaudêncio começou a conhecer outro tipo de perigo mais dilacerador que estes, aquele que machuca a alma: a palavra atravessada de Doca, a brincadeira que ofende, o tom de voz ameaçador...
Perto do casarão de Doca, coisa aí de uns trezentos metros, havia uma venda que servia aos capatazes do local. Venda e boteco, a um só tempo. Dava-se então o encontro de alguns peões e roceiros no final da tarde. Quem aí chegasse e topasse com a venda cheia, sentiria uma mistura acolhedora de cheiros: cachaça, fumo de corda, suor e querosene. As lorotas se estendiam até o bruxulear da lamparina... Coisa de oito horas da noite.
Foi exatamente nesta venda que Gaudêncio haveria de conhecer outro tipo de perigo: a trama, a traição, a vingança, o lado odioso do homem. Conheceu por histórias narradas pelas bocas dos peões, entre cusparadas no chão de terra batida, fatos ocorridos que envolviam rivais de fazendas vizinhas. Histórias de pecados e crimes, traição e sangue. Aprendeu o lado de defesa da própria honra. Daí, passar a viver sempre de olhos muito abertos para os perigos do corpo e os outros que afligem o coração.
Futuro.
Gaudêncio tinha agora ciência desses outros perigos do amanhã. E tentava, de todos os modos, estar longe deles e não causar mal a gente alguma. Por essa conduta, foi ganhando a confiança de Doca e a simpatia e amizade de Gonçalves.
– Doca, está faltando alguma coisa na vida de Gaudêncio, – disse certa tarde Gonçalves quando de uma visita à sua propriedade.
– Qui coisa será essa, sinhô Gonçarve?
– Não imagina não, homem de Deus?
– Hummm... Será o qui eu tô pensando?
– Arram...
– Tem pele lisa qui nem pesgo?
– Tá esquentando...
– Aquenta a gente de noite?
– Quase lá!
– Tem saia?
– Tá pegando fogo!
– Uma muié!
– É isso, Doca. Gaudêncio está mesmo precisando de uma mulher, estabelecer família.
– Mais cumé qui isso si arruma?
– Ora, Doca, minha empregada lá na cidade tem duas filhas, já em idade de casar, quase passando. Vamos começar por aí: arranjar um dia para elas passarem a tarde aqui na fazenda, pra se distraírem um pouco. E a gente ajeita um modo de elas, as duas, ou uma, conhecer Gaudêncio. Depois é só arrumar vantagens.
– Cumo assim, patrão?
– Vou deixar providências pra você melhorar a casinha dele. Mais um cômodo ou dois para os bacurizinhos. Pessoal de obra eu trago da cidade. Material também. Reboco e uma boa capinagem em volta. Uma cerca e um jeito no corgo. Afasta dali o chiqueiro lá pro fundão da horta...
– Mais sinhô Gonçarve, num é muito doce pruma boca só?
– Pensa, homem, pensa! Tá cada vez mais difícil arranjar gente pro trabalho da roça; tem capataz perdendo seus colonos pras vantagens da cidade. Gaudêncio é homem de confiança. Precisamos fincar ele na terra de uma vez por todas...
– Hã...
– Com família, casa, comida, ele pode se tornar até seu auxiliar pra comandar os colonos. Gaudêncio teve estudo, é moço bom. E a mulher tem que encontrar os apetrechos certos pra se fixar com seu homem.
– Tá certo, patrão...
– Então, manda o pau, Doca!
E a coisa se foi desenrolando conforme o conversado.
Estava chegando 5 de outubro, data em que se comemora o dia de são Benedito, padroeiro da fazenda de Gonçalves. Todos os anos, Doca e a parentalha, colonos vizinhos, famílias e amigos se dirigiam ao pátio que circunda a grande paineira, em frente do casarão, para festejar o santo.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.