O trabalho infantil é algo ancestral. Nasceu com a própria idéia de clã ou família. Nas comunidades mais primitivas o trabalho era inerente à própria inserção da criança no universo social e cultural de seu povo. Mas, se durantes séculos o trabalho da criança foi visto como natural e necessário, conforme a sociedade foi se desenvolvendo as relações jurídicas e sociais que envolviam o trabalho infantil foram também se tornando mais complexas.
A Revolução Industrial certamente exagerou na dose, colocando crianças muito novas em minas de carvão completamente insalubres. Obviamente, a reação não demorou a chegar e ao longo dos últimos dois séculos a humanidade foi aos poucos se opondo a essa exploração absurda.
Nos dias de hoje, porém, parece que estamos incorrendo no exagero oposto, uma aplicação quase que espontânea da chamada ‘lei da curvatura da vara’. Se antes não havia leis que protegessem as crianças da exploração, hoje existem em demasia, o que infelizmente acaba inibindo também aquele outro lado importante do trabalho, que é o educativo, que ajuda no desenvolvimento e na inserção do jovem e da criança com menos de 16 anos no universo cultural de nossa sociedade.
A despeito os resultados do relatório sobre trabalho infantil divulgado pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), publicados por este Comércio no domingo, 02/09, que apresenta ainda um alto índice de crianças afastadas da escola por conta do trabalho, é importante que a sociedade repense essa questão de forma um pouco mais ampla e não coloque todos os tipos de trabalho dentro de uma mesma medida. E, tambem, considerar que 14, 15 anos de idade é tempo adequado para se pensar em trabalho, desde que acrescente aprendizado ao jovem.
É certo que crianças precisam ir à escola e não devem desenvolver certas atividades que possam prejudicar seu desenvolvimento físico e mental. Mas também é certo que vários tipos de trabalho permitem que a criança desenvolva-se de forma sadia e ao mesmo tempo ocupe seu tempo com algo bastante útil para a sua formação como pessoa e como cidadão.
Proibir todas as crianças menores de 16 anos de trabalhar por conta de alguns exageros que infelizmente ainda são cometidos é também um exagero que pode nos custar caro no futuro. Ao tirar desses jovens a oportunidade de uma experiência e de um aprendizado profissional, como também de um ganho extra que pode ser importante para toda a família, nós simplesmente estamos fazendo com que vários deles fiquem perambulando pelas ruas da cidade, disponíveis às encrencas, às drogas e à vagabundagem, algo que já temos infelizmente presenciado em nossa cidade.
Nesse sentido, há que se buscar um equilíbrio. O trabalho nunca fez nem nunca fará mal a nenhuma criança, desde que adequado a sua idade e desde que não o afaste da escola. De resto, que se proíba e se puna aqueles que ainda insistem na exploração indevida do trabalho infantil.
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