‘Ideal de eu’


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O dia obrigatório de cumprir o dever cívico de votar está chegando. Com a proximidade da data, sentimentos surgem com mais intensidade. Dúvidas, incertezas, desânimo, tristeza, alegria, ânimo, certezas, etc. A eleição para presidente dos EUA provavelmente será definida pelo voto dos eleitores indecisos, os quais, por inúmeras razões, não se identificaram com algum dos candidatos. Votar, no Brasil, é um dever, e não uma faculdade. A partir dos 18 anos o voto é obrigatório e o não exercício gera inúmeros problemas para o cidadão. Somos obrigados a votar mesmo que não desejemos ou mesmo que tenhamos inúmeras razões para não votar. O fato é que temos que escolher alguém. Podemos votar nulo ou em branco, mas mesmo assim, fazemos escolhas.

Freud, em 1921, ao escrever sobre psicologia das massas, afirmou que a identificação é o laço mais antigo do indivíduo, e os sentimentos sociais repousam em identificação com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ‘ideal de eu’. A identificação ocorre de três formas: (1) Modelo – O menino identifica-se com o pai e deseja ser como ele; (2) Objeto desejado – Como a pessoa identifica-se com o objeto desejado que, devido à repressão, retroage para a identificação. (3) Identificação por meio do sintoma – independe de relações objetais. Trata-se da ‘possibilidade ou o desejo de se colocar na mesma situação’ da vivida por outra pessoa.

Ao escolher em quem votar demonstramos ‘identificação’ com o modelo, com o objeto ou com o sintoma, pois, o nosso eu (narcísico) se enriquece com as propriedades do objeto, já que através da eleição e dos candidatos, no imaginário, conseguimos atingir um ‘ideal de eu’ de nós mesmos. É uma forma de ser amado pelo outro, pois, o ideal do eu é o lugar onde o sujeito se verá e como é visto pelo outro. Ao cumprir meu dever cívico de votar, manifesto meu amor e o desejo de ser correspondido nesse amor, e, talvez seja por isso que muitos ainda estão indecisos. O amor nos consome, traz alegrias, mas a tristeza também acompanha o afeto. No amor sempre há espaço para dúvidas e traições que podem ser ideológicas e sentimentais, pois, nós não controlamos totalmente nossos desejos.

É por isso que existem leis civis e morais para normatizar a vida em sociedade. O amor deve ser na medida certa, nem muito e nem pouco, embora quantificar ‘muito’ e ‘pouco’ não seja tarefa fácil. Aos candidatos às vagas do Legislativo ou Executivo, cabe a tarefa de fazer com que eleitores se identifiquem como o modelo, como o objeto ou com o sintoma, para obter o voto. Quem souber fazer isso com maestria, ganhará. O voto, considerado como um sinal de união com o líder, possui uma qualidade emocional comum, ou seja, o compartilhamento do mesmo ‘ideal de eu’. Ao votarmos e escolhermos por via oblíqua, manifestamos identificação negativa com aquele que não recebeu o nosso voto. Com esse, não fizemos vínculo em relação ao candidato ou ao partido ao qual está filiado.

Que venha a eleição e vença o candidato que representa o ‘ideal de eu’. Pode ser que, eleito, o sujeito se transforme em um ser completamente desconhecido daquele em quem votamos. Quando se está no exercício do poder há a possibilidade de mudança de personalidade. Poder faz fronteira com a loucura e pode mudar o psiquismo das pessoas.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário

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