Uma tradição centenária perde terreno, ou melhor barracas, a cada dia em Franca. Acossada pela concorrência dos varejões e supermercados e pela falta de interesse das novas gerações em manter o negócio de seus pais, a feira livre perde comerciantes e compradores. A reportagem esteve na feira da Estação, que acontece aos sábados, e ouviu 17 feirantes sobre o futuro do negócio. Mais da metade respondeu que não vai passar a barraca a seus filhos, quando se aposentar. Os motivos vão desde a queda da renda nos últimos anos até o desinteresse de pais e filhos de manter o nome da família em um negócio que exige tantos sacrifícios.
Atualmente, Franca tem feiras livres de terça a domingo. Às terças, a feira é montada na praça Cubatão e na rua José Bonifácio. Às quartas, na praça do Senac. Às quintas, acontece na praça do Cemitério da Saudade. Às sextas, perto do Parque Fernando Costa. Aos sábados, na Estação, e aos domingos, na Major Nicácio. A cidade tem 95 feirantes com alvará definitivo e mais 31 com o documento provisório, que estão em experiência.
A Prefeitura não tem dados comparativos sobre o número de feirantes em décadas anteriores, mas os próprios admitem que o número de barracas já foi bem maior. Zilá dos Santos, 75, por exemplo, que trabalha em feira há 50 anos, diz que muitos donos de banca faleceram e ninguém tomou o lugar deles.
“O jeito é parar, porque meus filhos não querem ficar com a banca. Eles já são formados e têm o serviço deles”, diz Olair Cintra, que vende bananas na feira há 35 anos. “Filho tem que estudar, isso aqui não dá futuro, não”, fala Celso de Castro, que tem dois filhos e é feirante há 20 anos.
Marco Aurélio de Souza, que tem um açougue na feira, se inclui entre os que não querem repassar a barraca para seus herdeiros. Apesar de seu pai, Ademar, ter passado o ponto para ele, Marco não quer o mesmo para o filho, que hoje tem apenas nove meses. “Eu prefiro que ele estude para ter outra profissão”, diz.
A renda dos feirantes é muito variada: o lucro das bancas varia de um salário mínimo (R$ 622) a R$ 6 mil por mês. Entre os 17 entrevistados, 5 disseram à reportagem que seus lucros aumentaram nos últimos anos, seis afirmaram justamente o contrário, dois falaram que a renda permaneceu igual e os outros não souberam ou não quiseram responder.
Samuel dos Santos Silva, que vende temperos e condimentos, é um dos que teve queda. Ele disse que o surgimento de supermercados e varejões diminuiu demais o fluxo de pessoas na feira - e a sua renda. “Tive até que passar a vender mercadorias que não trabalhava anteriormente para poder pagar dívidas.” Samuel cita outro “vilão”: o cartão de crédito, que facilita as compras em lojas convencionais, mas não é aceito atualmente por nenhum feirante da Estação.
Dois colegas dele também reclamam da renda na feira. “Trabalho com feira há 37 anos e continuo pobre”, fala José Roberto de Lima, de 54 anos. “É tanta conta para pagar! A gente mais paga do que recebe”, diz Celso de Castro.
A maioria dos feirantes entrevistados pela reportagem tem mais de 50 anos. Sérgio Martins Júnior, 27 anos, foi o mais jovem encontrado pela reportagem na Estação. No entanto, ele estava apenas substituindo o pai. “Meu trabalho é com embalagens plásticas. Não tenho nada contra essa profissão, mas ela é muito trabalhosa. Você tem que acordar cedo, fica exposto ao sol e à chuva... É duro.”
Além de Sérgio e Marco Aurélio, apenas mais uma feirante, a vendedora de doces Soraia Santos, afirmou ter herdado a banca dos pais. Dos 17 entrevistados, 9 não querem passar a banca para os filhos. Outros dois têm esse desejo, mas os filhos não querem. Os outros não responderam.
VIDA DURA
A rotina difícil é outro entrave à manutenção das barracas em feiras livres. Segundo uma feirante que pediu o anonimato, uma das dificuldades é acordar cedo. Em dia de feira, ela se levanta às 4 da manhã, chega na feira às cinco e meia já com os produtos que vai vender e, às sete, sua barraca está montada. “Eu pago para que montem para mim”, diz.
Ela afirma que até gosta de levantar cedo, mas é muito ruim conviver com vento, sol e chuva, porque a barraca não oferece muita proteção. A peleja dela só termina por volta das 13 horas, horário de fechamento da feira.
Se o futuro de muitas barracas da feira livre é incerto, o presente traz algumas alegrias para os que trabalham lá. “Aqui você faz muitas amizades. Eu sou aposentado e, se não trabalhasse aqui, não teria nada para fazer”, conta Paulo Roberto Ponce. Josefa Maria de Melo diz que o que ela mais gosta na profissão é de lidar o público. “Tem uns chatinhos, mas a maioria é gente boa.”
Do lado dos consumidores não faltam elogios ao clima da feira livre. “O que me faz visitar a feira há mais de 40 anos é poder comprar coisas diferentes”, diz a aposentada Nilza Gonçalves. “Venho à feira mais para comprar pastel, mas o ambiente aqui é muito gostoso”, disse Daniel Silva.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.