Comércio da Franca - Por que vocês resolveram impedir a palestra?
Luís Eduardo Estival - Apesar de discordarmos totalmente da presença de um homem como dom Bertrand em uma universidade que se diz democrática, nós não tínhamos a intenção de implodir a palestra. A idéia, desde o início, era protestar contra a presença desse senhor. Tínhamos previsto um “ato-debate” antes da palestra, para o qual convidamos a professora Marisa Saens Leme, uma especialista em monarquia. Iríamos, também, marcar presença durante a palestra. Havíamos combinado fazer um jogral em protesto e depois sair. Acontece que quando estávamos reunidos na “Várzea”, que é como chamamos a praça da Unesp, os membros do Civi retiraram a bandeira que tínhamos produzido para protestar. Além disso, quando eles passaram pela Várzea, os organizadores e mesmo dom Bertrand e as pessoas que o acompanhavam, começaram a fazer graça com a gente. Aí os ânimos se acirraram. Foi como jogar álcool no fogo. De forma bastante espontânea os alunos resolveram ocupar o anfiteatro.
Comércio - Mas por que vocês não aceitaram a presença de Dom Bertrand no campus? A universidade não é democrática, como vocês defendem?
Estival - A rejeição a dom Bertrand tem dois motivos. O primeiro diz respeito à questão acadêmica. Ele não é um especialista em monarquia, não é um pesquisador, portanto não tem muito conhecimento para falar sobre sua influência na formação cultural do povo brasileiro. Nesse sentido, sua presença, em nossa opinião, tinha um cunho muito mais político do que acadêmico, até porque esse grupo, o Civi, está ligado ao diretor do campus. Não tem porque chamar dom Bertrand para falar sobre a contribuição da monarquia para a nossa formação, até porque ele é parte interessada na questão. Ele defende a restauração. O segundo aspecto é ideológico mesmo. Esse senhor fere os princípios básicos de uma democracia. É o paradigma de tudo o que odiamos. Ele acredita que a homossexualidade é algo satânico. Ele defende o trabalho infantil, é a favor do extermínio dos quilombolas e prega a luta armada contra os movimentos sociais. Além disso, ele é ligado a TFP, uma organização radical que prega essas mesmas coisas, e também a UDR (União Democrática Ruralista), que é responsável pelo massacre de Eldorado dos Carajás, por exemplo. Para nós, do movimento estudantil, é inconcebível que um homem como esse venha a fazer uma palestra em uma instituição como a Unesp.
Comércio - Mas, agindo dessa forma, vocês não estariam se equiparando a essa mesma violência e intolerância que tentam imputar a ele?
Estival - Creio que não. Na universidade, que é um espaço aberto a todos os movimentos sociais, não podemos permitir que um homem como ele venha difundir seus posicionamentos racistas e opressores.
Comércio - Impedi-lo de falar em nome da liberdade de expressão não é incoerente?
Estival - Não, não é. Fomos muito criticados por isso, mas há uma diferença. A liberdade de expressão tem um limite, ela não pode ofender a dignidade humana. Você não pode falar o que quer quando sua opinião atinge o direito de outras pessoas.
Comércio - Como foi a manifestação?
Estival - Foi pacífica. Não houve agressividade. Talvez deveríamos tê-lo deixado falar. Mas como foi espontâneo, o ato foi legítimo.
Comércio - Qual a impressão que fica desse episódio?
Estival - Fizemos uma assembleia para avaliar o que aconteceu. Foi a mais concorrida do campus novo, com quase 200 pessoas. Dela tiramos o seguinte: a palestra não deveria ter sido marcada, o diretor do campus não poderia estar envolvido e não concordamos com nenhuma sindicância.
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