Sobrando vagas


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A época é atípica, mas a indústria calçadista de Franca está com mais de 100 postos de trabalho em aberto no município. Em um primeiro momento, poderia se atribuir essa oferta extemporânea de vagas ao bom momento vivido pela indústria calçadista, que estaria com dificuldades para atender a uma demanda também um pouco fora do lugar.

Se esse fosse o único motivo, não há dúvida de que essas seriam excelentes notícias para a cidade. Com mais empregos, a economia passaria a girar com mais velocidade ainda, beneficiando também o setor de serviços, o comércio, outros setores da indústria e toda a economia francana de maneira geral.

Mais uma vez, porém, é preciso utilizar esse espaço para chamar a atenção de nossos empresários e de toda a comunidade. Mesmo que as empresas estejam produzindo mais, talvez essa falta de mão de obra não se explique unicamente por esse crescimento da produção.

Para uma cidade historicamente acostumada à produção de calçados, em que a tradição de ser sapateiro costumava passar de pai para filho, a falta de mão de obra qualificada não deveria ser uma tônica. Ao contrário, deveria haver na cidade e na região inúmeras pessoas habilitadas e disponíveis para executarem as várias funções que se dividem pela cadeia de produção de calçados, até porque a cidade vem crescendo ininterruptamente há décadas e a indústria calçadista continua como a principal da região.

Mas, se isso não está mais acontecendo, para além da demanda aquecida, pode ser que os jovens também tenham se cansado das condições de trabalho nessa tradicional indústria. Como a cidade diversificou sua economia, é possível deduzir que nossos jovens estejam partindo para outros desafios. Talvez pelos baixos salários praticados por essa indústria, talvez pelo acesso mais facilitado à educação, o que lhes possibilita almejar carreiras mais promissoras, o fato é que os novos trabalhadores parecem abandonar a profissão de sapateiro com o mesmo entusiasmo com que seus pais ou avós já a procuraram um dia.

O orgulho de ser sapateiro, nesse sentido, parece estar perdendo seu brilho. E se isso estiver realmente acontecendo, é bom que nossos empresários reflitam a respeito e comecem a pensar nos motivos que estão nos levando a essa escassez de mão de obra qualificada, já que as relações trabalhistas são também relações de troca.

O problema é que só realizamos as trocas quando nelas percebemos algum ganho, seja em termos de status, de poder, de dinheiro ou de satisfação. E pelo visto nossas empresas não se preocupam muito com a gestão de pessoas. Não se preocupam com sua parte nessa relação de troca, a não ser o salário, que além de baixo, não é a única prioridade de um trabalhador.

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