Para quem tem depressão a medicação é, muitas vezes, a única indicação que surte efeito (veja no quadro os sintomas da depressão). Foi assim com a consultora de vendas Rafaela (nome e profissão foram mudados a pedido da personagem), de 27 anos. Filha de pais separados, pressionada por bons resultados no trabalho, conciliando a empresa com a faculdade, oito anos sem tirar férias e o fim de um longo namoro foram um fardo pesado demais para a jovem. O extremo cansaço e o desânimo que vinha sentindo nos últimos meses deu lugar a uma grave depressão que a levou para a cama e tirou até mesmo sua higiene pessoal e seu já pouco apetite.
Depois de passar três dias sem sair da cama para nada, sem se alimentar ou sequer tomar água, foi convencida pela família a ir ao médico. Um neurologista lhe receitou antidepressivos e ansiolíticos e a encaminhou para um psiquiatra. Os remédios demoraram cerca de 15 dias para começar a fazer efeito e, nesse tempo, Rafaela perdeu 12 quilos. Passou dos 48 para 36 quilos.
Nem ela e nem a família perceberam os primeiros sinais da doença que, de acordo com o psiquiatra francano Carlos Henrique Ribeiro Santos, são, principalmente, o sentimento de desespero e pessimismo diante da vida, perda do interesse e do prazer nas atividades que antes eram apreciadas, inclusive na vida sexual, falha de memória, distúrbios do apetite e do sono e o constante pensamento de morte. “Algumas pessoas sentem um dos sintomas, outras todos eles juntos, mas é importante saber diferenciar tristeza comum de depressão. A tristeza da depressão é muito desproporcional a qualquer causa alegada e nunca dura menos de 15 dias”, explica.
Hoje, Rafaela tem a depressão sob controle, mas o bem estar causado pelos medicamentos, principalmente os calmantes, faz com que muitas vezes ela ainda abuse dos remédios. “Eu sei que a automedicação é perigosa e que eu estou dando ao meu organismo algo de que ele não precisa mais, mas, às vezes, preciso de uma ‘paz’, mesmo que artificial”, conta.
O advogado francano Gustavo, 36 (o nome foi mudado) - filho de pai violento e alcoólatra e de mãe depressiva -, já fez uso dos remédios antidepressivos em duas ocasiões. No intervalo tentou abandonar o tratamento, voltou a apresentar os sintomas, retomou os remédios e agora leva uma rotina normal.
Casado e pai de uma criança de cinco anos, ele entrou em crise pela primeira vez ao ser demitido. Com problemas financeiros e um filho recém-nascido, perdeu, literalmente, a vontade de viver e pulou de um carro em movimento, em uma rodovia. “Eu não pensei, só pulei. Foi o fundo do poço da depressão.”
A doença reapareceu após uma crise no seu casamento. Novamente foi medicado, mas, na ansiedade de se curar, triplicou a dose receitada pelo psiquiatra e misturou a droga com álcool. O resultado foi quase 48 horas apagado. Com ajuda médica, diminuiu aos poucos o remédio. “O antidepressivo tem efeitos colaterais, enfrenta preconceitos de muita gente que acha que só loucos tomam a medicação, mas tenho plena consciência de que sem eles teria sido, se não impossível, muito mais difícil”, afirma.
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