Cuba: um lugar de paladares


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Não voltarei jamais à Cuba, não voltaremos jamais à Cuba, assim nos prometemos eu e meu marido, porque não queremos estragar as doces e extraordinárias lembranças de um lugar que parece situado em outra dimensão. Não voltarei jamais à Cuba porque quero continuar acreditando que pessoas e lugares possam ser constituídos de música, que a docilidade seja a regra, que a malandragem seja mais inocente que a nossa fé.

Estive em Cuba há algum tempo e tive notícias, através de meu marido que por lá andara 10 anos antes, que já se tratava de outro país, tamanhas mudanças operadas, principalmente nos jovens.

Nosso modo americano de ver a vida e dar conforto, pouco a pouco vai se acomodando por lá. Víamos jovens tentando, de modo suspeito, ganhar qualquer dólar para ostentar roupas com etiquetas famosas. Nossos tênis, comuns por aqui, despertavam olhares invejosos.

Mas Cuba é, ou pelo menos era, mais do que isso, Cuba é forte, é criola, é pirata, é orgulhosa. É engraçado ver que Fidel e Che Guevara são menores que os cubanos, eles não são as principais figuras de Cuba, talvez eles sejam pretexto para o trancamento de Cuba diante do mundo. Pensava que, ao desembarcar em Cuba, iria “topar” com Fidel e Che, mas não, topei com os cubanos, esses sim, maiores que os seus grandes revolucionários.

Vimos maravilhados um velho com uma marmita nas mãos, roupas simples, sapatos elegantes, passar pelo restaurante onde jantávamos, ouvir a música, que jamais para, deixar a marmita na calçada e dançar sozinho, num cantinho. Um passo e estava na luz, outro passo e estava no escuro, porque semiprotegido pela sombra da marquise. O velho era um Fred Astaire negro, sem pretensões de fama, mais humano, porque sabe que dançar com uma mulher, ainda que imaginária, é mais poético.

Sempre imaginei que a dança, a música estivessem no mundo para o divertimento, claro, à exceção dos profissionais. Mas assistir àquela cena me tocou de modo a me emudecer, porque a música por lá é a vida deles, talvez o lado mais bonito dela.

Quero falar da comida cubana, mas sempre algo mais intenso me tira da rota. Começo então pelos mojitos, que etílicos, são mais envolventes. Claro, são os melhores, e mais fracos também, por isso bebe-se mais - detalhe: usa-se menta em lugar da hortelã, por isso o sabor é mais marcante e bem mais refrescante. Além disso, usa-se água com gás e não tônica. Os melhores de lá, tomamos num excelente bar de músicos: La Zorra y el Cuervo Jazz Club. O sanduíche mais vendido era um pão comprido de casca dura, besuntado de mostarda com presunto cru - encarei e me dei bem.

Nas ruas de Havana “vieja” pode-se comer bem, por bem pouco. Há os chamados “paladares” que são os restaurantes dos cubanos, organizados nas casas deles. Servem comida caseira a bom preço e qualidade e são bastante originais, e foram responsáveis pela melhora na qualidade da comida servida em Cuba - antes, apenas o governo poderia servir comida aos turistas, e sem concorrência, a comida, dizem, era lastimável. O mais curioso é que o nome paladares foi inspirado por nós, brasileiros. Pois a atriz Regina Duarte, na novela Vale Tudo, abre um restaurante que se chama Paladar - e os cubanos são loucos pelas nossas novelas.

Saindo de Havana, interior adentro, muda-se a paisagem, acirra-se o patriotismo, as casas ostentam cartazes escolares em cartolinas saudando a revolução, como se tivesse ocorrido ontem. Mas é preciso comer, e, mapa nas mãos, procurávamos o restaurante Rumayor atrás de um famoso galeto defumado indicado em todos os guias. O tal galeto não decepcionou.

A música, o mato, o restaurante, a mulher que não enxerguei pareciam lutar numa bruma indecifrável a nós, só o galeto era real - o galeto defumado numa simplicidade nada revolucionária.

Dica da semana
A noz moscada tem aroma delicioso, mas também forte e persistente, é fruto de uma árvore asiática tropical que atinge até 20 me-tros, que parece ter se originado na Nova Guiné e fez de seu lugar de origem, atualmente parte da Indonésia, uma potência marítima, pois, deixou portugueses e holandeses malucos pelo fruto.

A semente de noz-moscada é dura e negra. O interior dela, no entanto, é esbranquiçado e macio e tem sabor delicado.

Na gastronomia, a noz-moscada pede, aliás, implora prudência, pois, uma raladinha a mais e o prato estará irremediavelmente perdido. Ela vai muitíssimo bem em doces, molhos brancos e ovos.

O calor excessivo tende a mudar um pouco o sabor desse fruto, daí, o melhor é ralar a noz-moscada na hora de servir o prato.

Dias desses a apresentadora de TV e escritora Rita Lobo deu uma dica bem bacana de utilização da noz moscada. No molho branco, principalmente bechamel, ralar a noz moscada em cima do prato para gratinar. Testei e fica ótimo mesmo. Mas, nesse caso recomendaria não colocá-la no molho, apenas por cima, sob pena de exagerar na dose.
 

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