O eterno pianista e hoje maestro João Carlos Martins, 72 anos, um dos maiores intérpretes de Bach que o mundo já conheceu, nos recebeu com sorriso largo e bom humor, o que já deve ser um estado de espírito constante, se considerarmos tudo que ele precisou enfrentar para chegar aonde chegou.
Nascido em São Paulo, filho do português José da Silva Martins com a ribeirão-pretana Alay Gandra Martins, João Carlos deve ter herdado no sangue o gosto, o amor e a afinidade com o piano. Aos 10 anos de idade, seu pai, funcionário de uma gráfica na cidade de Braga, Portugal, conseguiu algumas aulas para se iniciar nos mistérios do milenar instrumento. Três dias antes da primeira aula, no entanto, teve um de seus dedos amputado por uma máquina, como a profetizar uma sina de família que mais tarde marcaria seu filho.
Já no Brasil, em 1948, José Martins comprou um piano e começou a realizar seu sonho através dos filhos, José Eduardo e João Carlos. Este último, então com 8 anos idade, precisou de apenas 6 meses para ganhar o primeiro concurso de sua vida, uma disputa que tinha como base a música de Bach e que iria influenciá-lo para o resto da vida.
Estudando entre seis e oito horas por dia a partir dos 11 anos, João Carlos logo começou a se destacar com um grande pianista. Aos 13 anos iniciou sua carreira no país e aos 18 já estava tocando para plateias internacionais. Aos 21 anos, foi convidado pela ex-primeira-dama dos EUA, Eleanor Roosevelt, a se apresentar no Carnegie Hall. Rapidamente transformou-se em uma virtuose internacional, sendo saudado pelos maiores jornais e críticos da época.
Infelizmente, porém, o destino começou a travar-lhe o caminho. Primeiro, com vinte e poucos anos de idade, teve uma pequena distonia nas mãos, uma doença que causa uma espécie de congelamento dos movimentos durante uma determinada ação e provoca contrações musculares involuntárias, algo que ele foi contornando com remédios.
Depois, em um despretensioso jogo de futebol, ele caiu e uma pedra penetrou-lhe o braço, na altura do cotovelo, rompendo-lhe um nervo, o que acabou prejudicando o movimento das mãos.
Depois de várias cirurgias e tratamentos, em 1970 resolveu afastar-se da música. Como admirava muito o Muhammad Ali e era amigo de Éder Jofre, o maior campeão que o boxe brasileiro já conheceu, resolveu experimentar esse esporte e tornou-se empresário.
Tempos depois, voltou novamente ao piano e conseguiu retomar sua carreira, desenvolvendo uma técnica diferente para dedilhar o teclado. Mas a posição forçada em que estava tocando logo lhe proporcionou uma LER (Lesão por Esforço Repetitivo), o que lhe custou nova interrupção na carreira.
Voltou ao mundo empresarial e entrou para a política, nos anos 90, segundo ele a pior coisa que fez na vida. Desgostoso com tudo que sofreu na política, retornou ao piano para recuperar sua imagem e seu equilíbrio.
Quando tudo parecia bem novamente, o destino aplicou-lhe um novo golpe. Em Sófia, capital da Bulgária, em 1995, foi atacado por um bandido ao sair do estúdio onde gravava e levou uma pancada na cabeça, o que afetou o movimento de sua mão direita e o deixou internado por cerca de oito meses.
Entre essas e outras histórias, João Carlos Martins deixou nessa entrevista ao Comércio um grande exemplo de superação aos francanos.
Comércio da Franca - O senhor ganhou um concurso com oito anos. Pode-se dizer que era uma virtuose?
João Carlos Martins - Acho que não. Todo grande artista precisa ter pelo menos 2% de dom. Os outros 98% são pura disciplina. Agradeço a Deus pelos 2%.
Comércio - Como era o ambiente musical na sua casa, quando jovem?
João Carlos Martins - Meu pai adorava música e piano. Infelizmente, acabou se realizando por mim e por meu irmão. Mas em casa se respirava música. Ouvíamos de tudo e constantemente. Em certa ocasião, chegamos a ter sete pianos em casa. Todos tocavam, até meu irmão, o Ives Gandra, conhecido jurista, também arriscou-se um pouco no piano.
Comércio - Sua carreira foi meteórica. Com 20 e poucos anos o senhor já era conhecido em quase todo mundo e era ovacionado pelo público e pela crítica. Como enfrentou seu primeiro acidente?
João Carlos Martins - Eu já vinha enfrentando alguns problemas, resultado dos treinamentos intensivos que fazia. Mas esse primeiro acidente foi realmente decepcionante. Era o verão de 1965, em plena Nova Yorque, onde estava já havia algum tempo. Como sou um apaixonado pelo time da Portuguesa, aceitei o convite para compor um treino do time, que estava excursionando pelos EUA e não tinha jogadores suficientes. A gente estava no Central Park. O Félix, ex-goleiro da seleção que acabou de falecer também estava lá. Eu acabei caindo e uma pedra entrou em meu braço, perto do cotovelo. Aí começou meu calvário. Fiz cirurgia, tratamento, mas não adiantou. Em 1970 eu acabei me afastando da música.
Era como se meu sonho tivesse acabado e eu mal tinha chegado aos 30 anos. Fiquei arrasado. Aí entrei para o boxe. Tornei-me empresário.
Comércio - Por que o boxe e como foi a experiência?
João Carlos Martins - Tem alguma coisa mais distante da música do que o boxe? Até que foi boa. Eu fui o organizador daquela luta que aconteceu em Brasília, quando o Éder Jofre conseguiu recuperar o título mundial. O Éder tinha se afastado dos boxes amargurado com uma derrota que foi bastante contestada. Ficou três anos sem . Mas conseguiu voltar e se superar. Naquela noite, quando eu vi o juiz erguendo o braço do Éder, eu disse para mim mesmo que eu era um grande covarde.
Comércio - Por quê?
João Carlos Martins - Porque o Éder, com 38 anos, tinha tido a coragem de se superar e voltar aos ringues e eu não tinha tido essa coragem de voltar ao piano. Ele serviu de inspiração para mim. No dia seguinte, já comecei a me preparar para voltar. Fiz cirurgias, tratamentos e comecei a desenvolver uma nova forma de dedilhar o teclado que ninguém percebeu, nem o público nem os críticos. Voltei com tudo e em 1978 comecei a gravar a obra completa de Bach. Só que o esforço que fazia começou a cobrar seu preço e eu comecei a sentir os efeitos da LER (Lesão por Esforço Repetitivo). E aí tive que parar novamente.
Comércio - Foi quando o senhor entrou para a política, nos anos 90?
João Carlos Martins - Nem me lembre. Foi a pior coisa que fiz na vida. Arrependo-me todos os dias ainda hoje. Esse episódio destruiu minha imagem. Fui tido como ladrão sem nunca ter roubado nada. Só cometi um erro, porque empresa não podia fazer doação naquela época. Mas nunca roubei um tostão. Ganhei no Supremo Tribunal Federal por nove a zero, mas de qualquer forma fiquei marcado. Nada do que fiz na música foi suficiente para minimizar o escândalo. [No episódio, conhecido como escândalo do Pau Brasil, o músico foi acusado de emitir notas frias de sua empresa, a Pau Brasil, para justificar a contribuição de empreiteiras para duas campanhas eleitorais do então deputado Paulo Maluf].
Comércio - Esse episódio o ajudou a voltar de novo para a música?
João Carlos Martins - Não só ajudou como me salvou. Eu rompi com o Maluf e com tudo e voltei a me dedicar ao piano. Se não fosse a música, eu não sei o que seria.
Comércio - E como foi esse novo retorno?
João Carlos Martins - Exigiu muito esforço, mas eu consegui. Retomei as gravações da obra de Bach e voltei a dar concertos dentro e fora do país.
Comércio - E para complicar um pouco mais sua vida veio aquele assalto na Bulgária em 1995?
João Carlos Martins - Exato. Era de madrugada. Eu estava saindo do estúdio e fui abordado. Reagi e levei uma pancada na cabeça, que afetou os movimentos de minha mão direita. Fiquei oito meses no hospital tentando um tratamento revolucionário para voltar a tocar. Consegui, mas foi provisório. As consequências desse tratamento me trouxeram muitas dores e os médicos acabaram cortando o nervo. Aí eu perdi definitivamente o movimento da mão direita.
Comércio - Foi quando o senhor passou a tocar apenas com a mão esquerda, não é?
João Carlos Martins - Exatamente. Retomei meus concertos apenas com a esquerda, mas já não era a mesma coisa. O New York Times fez uma crítica dizendo isso e eles estavam corretos.
Comércio - Mas o senhor teve ainda outro problema nas mãos...
João Carlos Martins - Sim, mais um. Estava em turnê quando descobri um tumor na mão esquerda. Era benigno, uma espécie de calo, resultado de anos e anos sobre o piano. Mas no final, tive que parar completamente.
Comércio - E como foi passar de pianista para maestro em 2003?
João Carlos Martins - Eu sonhei que estava tocando com o maestro Eleazar de Carvalho (falecido em 1996). No sonho, ele me chamava para reger com ele. No dia seguinte, às 7h eu já estava tendo minha primeira aula de regência.
Comércio - Sua vida passa por aclamação pública, tragédias pessoais, intrigas políticas, escândalos e superação. Daria um belo filme...
João Carlos Martins - Já deu dois e tem mais um vindo por aí. O cineasta Bruno Barreto vai fazer um longa metragem sobre minha vida. Eu já li o roteiro e gostei muito. O ator será o Marcelo Serrado. Ele toca piano e inclusive já começou a fazer algumas aulas comigo. As filmagens devem começar em 2013.
Comércio - O senhor foi bastante homenageado. Depois de tanta provação, como se sente?
João Carlos Martins - Bastante feliz, obviamente. Agradeço a Deus por ter me dado essa determinação, que agora me propicia essas alegrias. O Carnaval com a Vai-Vai [ele foi tema da escola em 2011] foi uma emoção muito grande, acho que a maior da minha vida. Entrar naquela avenida e ouvir toda aquela massa de gente cantando a sua vida não é para qualquer coração. Mas fiquei muito feliz também com o reconhecimento da CNN, que me elegeu como a pessoa em 2012 que está fazendo a diferença.
Comércio - Em função de seu trabalho social com os jovens?
João Carlos Martins - Exato. Hoje já são mais de 2.200 jovens atendidos pela Fundação Bachiana [que dá chance a jovens carentes de aprender música clássica e integrar a Orquestra Bachiana]. Acho que estou sendo hoje um veículo de democratização da música clássica.
Comércio - E para o futuro, podemos esperar mais alguma surpresa do músico João Carlos Martins?
João Carlos Martins - Com certeza. Temos um projeto que envolve a Fundação Bachiana, os governos federal e do Estado, o Sesi e alguns patrocinadores. Pretendemos ter cerca de mil orquestras jovens em 10 anos. Já fizemos a metodologia e logo começaremos a colocá-la em prática. Creio que para a música clássica voltar a crescer nós precisamos fazer com que ela chegue às crianças e aos jovens.
Comércio - Para finalizar, o senhor poderia contar aquele episódio com o Salvador Dali?
João Carlos Martins - Foi no final dos anos de 1960. O Salvador Dali assistiu a um recital meu no Carnegie Hall e no final me disse: “Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita”.
Comércio - E o senhor seguiu o conselho?
João Carlos Martins - Não, não...
Comércio da Franca - Mas acredita que seja...
João Carlos Martins - Parodiando o Marcelo Tass [apresentador do CQC], acho que estou no Top Five.
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