As novelas televisivas continuam fortes no Brasil. Apesar de não alcançarem o mesmo ibope que esbanjavam há algumas décadas, ainda se mantêm como uma das principais diversões do brasileiro. O enredo também não mudou muito. Ao contrário, como suas ancestrais escritas em jornais no começo da era moderna, continuam privilegiando a velha luta entre o bem e o mal.
Mas, entre essas mudanças e permanências, uma em especial tem chamado a atenção nos últimos tempos: os vilões estão começando a angariar até mais simpatias do que os mocinhos, ou pelo menos emparelhando-se com eles nas preferências. É o que se pode perceber da audiência que a personagem Carminha, da novela Avenida Brasil, da Rede Globo, está proporcionando à novela. Interpretada por Adriana Esteves, vem se tornando a principal referência da trama.
Geralmente merecedores de uma grande audiência pelos tipos divertidos que os interpretavam ou pela atração que o perverso, o misterioso e o canalha sempre exerceram sobre o gênero humano, agora esses vilões estão ganhando uma dimensão mais real e humana. A despeito dos crimes que praticam ou das encrencas que tentam empurrar para seus desafetos dentro da trama, eles também encontram espaço para mostrarem o seu outro lado, compondo-se como personagens mais complexos, cheios de conflitos e contradições, o que os aproxima das pessoas comuns.
Essas cenas, no entanto, nada mais fazem do que refletir na trama televisiva as mudanças comportamentais de uma sociedade que hoje se apresenta também mais complexa, conflituosa e contraditória. Sem ter abandonado completamente sua intolerância, tornou-se ao mesmo tempo mais compreensível em relação aos problemas e aos direitos dos outros. Sem perder totalmente sua belicosidade e seu individualismo, rendeu-se também ao anseio de paz e às preocupações que dão suporte ao espírito mais coletivo.
De forma geral, parece que saímos de um maniqueísmo simplista, por meio do qual separávamos o bem e o mal, e nos conscientizamos de que ambos estão inadvertidamente dentro de nós, disputando todos os espaços possíveis em nossas ações e nossos sentimentos.
Em função disso, esses personagens se tornaram mais reais. Construídos com maestria por grandes atores e atrizes, os vilões talvez tenham ficado mais parecidos com os vários picaretas e malandros com os quais nos confrontamos em nosso cotidiano, o que sempre foi uma realidade na vida de qualquer cidadão, até mesmo na dos próprios malandros e picaretas, uma vez que eles também não são nem nunca foram imunes à picaretagem e à malandragem de outros da mesma laia.
No final das contas, se a arte realmente imita a vida, pelo menos as novelas e seus novos vilões estão mostrando uma sociedade mais próxima daquilo que vivenciamos no dia a dia, o que a torna mais interessante e também divertida.
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