“Eu me senti bem.” É assim, nas palavras de uma criança de 6 anos, que se resume o sentimento geral de quem esteve presente no Centro de Atividades Osvaldo Pastore, no Sesi, na última sexta-feira. Foi a primeira vez que Pedro Pereira, a criança citada, foi a um concerto. Da arquibancada onde se encontrava, imitava os gestos do maestro João Carlos Martins no comando da Bachiana Filarmônica Sesi-SP enquanto regia a sua orquestra imaginária. “Toco guitarra e gosto de Beethoven”, revelou o pequeno. Sua peça predileta? “Ode à Alegria”, respondeu tropeçando na pronuncia.
Assim como ele, mais de 900 pessoas foram absorvidas pela apresentação da Bachiana, que teve início por volta das 21 horas, com cerca de uma hora de atraso. De acordo com o fagotista Francisco Formiga, um cálculo equivocado do percurso entre São Paulo e Franca teria motivado o atraso. “O motorista deve ter calculado errado o tempo de viagem. Veio devagar demais e nos atrasamos”, alegou. Já o maestro Martins, chegou com bastante antecedência. Em Franca desde as 18 horas de sexta-feira, recebeu a imprensa nas dependências do Sesi antes da apresentação. “Franca foi uma das primeiras cidades onde me apresentei no início da minha carreira como pianista, em 1956”, revelou enquanto cumprimentava os presentes. Acomodado em um estofado branco, falou sobre sua história de superação. Pra quem não sabe, João Carlos Martins foi um dos mais prestigiados pianistas do Brasil, com carreira internacional. Tocou com as maiores orquestras norte-americanas e gravou a obra completa de Bach para piano. Foi ele quem inaugurou o Glenn Gould Memorial em Toronto. No percurso de sua carreira, viu-se privado de sua paixão quando, após um jogo de futebol, um de seus nervos foi rompido e o movimento de sua mão direita perdido. Depois de várias tentativas como adaptação nos dedos da mão prejudicada, concertos realizados com apenas a mão esquerda, mais um fato o distanciou de seu ofício. Ao realizar um concerto em Sofia, na Bulgária, sofreu um assalto e ao ser golpeado na cabeça, perdeu parte dos movimentos das duas mãos. Aos 64 anos viu-se na porta de uma faculdade para aprender a reger e, assim, começar um novo sonho: democratizar a música erudita. Hoje, com a Bachiana Filarmônica, leva a música clássica a todas as partes do Brasil, se apresentando em lugares públicos e de forma gratuita. “Democratizar a música é levá-la a todas as camadas sociais”, disse enquanto mostrava um folder com fotos de lugares por onde passou com a orquestra. “Vou mostrar o que a Bachiana Sesi-SP tem a mais: ousadia. Isso é a sala São Paulo (mostrando imagens da sala lotada). Aqui é o Lincoln Center de São Paulo... nós ultrapassamos os 10 milhões de espectadores em apresentações ao vivo. É aí que você percebe que a música passa a ser um direito de todos e não somente da elite num Teatro Municipal (SP). É esperança para todos. Essa é a nossa ambição”, arrematou.
Já no palco, fez piadas sobre a vaidade dos maestros e introduziu um pouco de sua história, que se funde à da Filarmônica. Orquestrou obras de J. S. Bach, Bocherini, Brahms e Tchaikovsky. Com a aprovação e coro do público, evocou o nostálgico Trem das Onze, dos Demônios da Garoa. Despediu-se. Sob salvas e mais salvas de palmas, voltou e fechou a noite com o Hino Nacional Brasileiro. Quebrando o protocolo, todos de pé, mais uma vez, aplaudiram. Já fora do ginásio, a noite ecoava. “Isso aí não é ‘pra’ qualquer um não. É um espetáculo” disse emocionado o aposentado Primo Luiz Geron.
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