A dona de casa Carolina Neves Carrijo, 67, não cuida mais da casa nem das violetas e antúrios, que permanecem intocados na varanda da residência onde ela morou os últimos 30 anos de sua vida. Sobre a mesa forrada com uma toalha bege, uma vela sempre fica acesa em frente à imagem de Santa Rita. Desde menina, Carolina mantinha o hábito de acender velas de sete dias para a santa. Na última quarta-feira, dez dias após a morte violenta dela, consequência de um assalto, a vela estava acesa. A família vai preservar a tradição.
O cinzeiro que Carolina usava sempre que se sentava na cadeira para descansar e fumar também continua sobre a mesa. Vazio, sem cinzas, mas está lá como uma lembrança de “Carola”, apelido dado a ela pelo marido. “Olho pra essa cadeira e vejo a imagem dela sentada aqui, enxergo até a roupa que ela usava. Nunca vou esquecer”, desabafa o agricultor Melchior Carrijo, com os olhos cheios de lágrimas.
Aos 71 anos, Melchior ficou viúvo há duas semanas. Carolina foi baleada durante um assalto na casa deles, na avenida Brasil, no Jardim Paulistano, ocorrido no dia 5 de agosto. Teve o corpo perfurado. Ficou uma semana internada, foi submetida a mais uma cirurgia - fez mais de dez na vida, segundo o marido -, mas, dessa vez, não resistiu. A morte de Carolina deixou “órfãos” o marido, três filhos do casal, dez netos, três bisnetos e amigos. Lágrimas, saudade e revolta pela crueldade dos três assaltantes se tornaram companhias diárias dos Carrijo.
Melchior tem procurado ocupar a mente. Durante o dia, corre atrás dos negócios, viaja para seu sítio para acompanhar as plantações de café, não para. Mas, à noite, se torna refém do silêncio sepulcral da casa. Todas as noites ficava com a mulher. Assistia novelas. Conversava sobre os filhos. “Ela não volta mais. Estou fazendo de tudo para resistir, tocar minha vida. Queria ter ido primeiro que ela para não sentir essa dor, que nunca vai apagar.”
Carolina e Melchior começaram a namorar num baile na Laje, bairro rural de Ibiraci (MG). Ela tinha 16 anos. Eles namoraram seis meses e se casaram. Receberam a benção do padre, na igrejinha de Ibiraci, no ano de 1961. Completariam 51 anos de matrimônio no dia 28 de outubro. Mesmo com a morte da mulher, Melchior conjuga os verbos no presente quando se refere aos dois. “Vou completar mais de 50 anos de casado em outubro. Nosso casamento é uma vida. Teve as rusgas como qualquer casal, mas sem emburrar um com o outro.”
O casal morava sozinho no Jardim Paulistano. Os filhos fizeram suas vidas: Ronei, 49, Lúcia Helena, 47, e Luci Alda, 46, são casados. Carolina, além de comprar todas as roupas do marido, escolhia todos os dias a camisa, calça e sapatos que ele usaria.
A filha Luci, empresária, também sofre com a ausência da mãe. “A mãe da gente é tudo. Sou casada, meus filhos estão criados, mas parece que preciso tanto dela. Tenho saudade de coisas simples, como o sorriso dela quando me recebia no corredor e via os netos”, disse, emocionada.
Além de sua própria dor, Luci se preocupa com o pai. “Todo dia pra gente ainda é assim de dúvida, é choro, é preocupação com meu pai, em saber se ele está bem porque eram só os dois.”
SAÚDE FRÁGIL
Carolina estava bem nos últimos meses, mas sempre teve saúde frágil. Era diabética, hipertensa e tinha colesterol. “Ela tomava uma ‘mãozada’ de remédios todos os dias. Ficava impressionado com aquilo”, disse Melchior.
O marido calcula que a mulher, que completaria 68 anos no próximo dia 20, tenha passado, contando a cirurgia após ser baleada, por mais de dez operações. Com 12 anos precisou retirar o apêndice inflamado, fez três pontes de safena no coração e retirou o útero, entre outros problemas. Mas não foram as doenças que a mataram. Foi a violência que calou sua voz e estancou a dedicação ao marido, o amor aos filhos e a paixão pelos netos. A família não se conforma. “A morte dela é triste e ainda morrer com essa crueldade dos bandidos, de quem não tem Deus no coração. Se ela morresse dos problemas de saúde era mais fácil aceitar. Eu estou revoltado”, disse Melchior, chorando. “Falei para eles levarem os carros, levarem tudo. E agora não tem lei, não tem justiça no Brasil, estamos no mundo da impunidade, só que Deus tarda, mas não falta.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.