É sempre rico o compartilhamento cultural, não há povo estéril. A constituição de um povo se faz pela constituição da própria cultura, que não pode ser desprezada.
Que o diga o povo boliviano no Brasil - são muitos. Não imaginava que houvesse cerca de 350 mil bolivianos morando aqui. Esse número significa quase 20% dos moradores de toda a La Paz. E todos residindo em São Paulo - aliás, o gigantismo da capital de nosso Estado causa assombro, ela abarca miniaturas de vários países, tal como uma exposição de culturas e faz o mundo um pouco menor.
É natural que cada povo vá se achegando para um mesmo cantinho, para que um ajude o outro, para encontrar um parente distante ou um amigo do amigo.
No caso dos bolivianos, eles fizeram do bairro do Pari, em São Paulo, a sua morada brasileira, tomaram de “assalto” uma praça e a batizaram com o nome de uma flor que é símbolo de seu país: a Kantuta. A praça Kantuta abriga hoje, todos os domingos, das 11h às 19h, uma verdadeira profusão de rostos andinos, “fantasiados” celebrando a cultura da Bolívia. Estima-se que 2 mil bolivianos se encontrem por lá todos os domingos: conversam, cantam, dançam. O espanhol, língua nativa, é a principal melodia daquele pedacinho do Brasil.
Claro, há música, há dança, há desfile de trajes típicos, mas a grande atração, como sempre, é a gastronomia. E eles não fazem concessões: a comida é boliviana da gema, por isso também, difícil para nós gostarmos. Bom para abrir corações e mentes.
A começar por uma das maiores atrações da feira, a sopa Maní, que se constitui num caldo, quase sem sal, com base de amendoim e coberto por uma erva que lembra um pouco o coentro: a quirquiña.
Outra atração, essa mais palatável a nós, é uma irmã das empanadas argentinas: as salteñas. Mas, ao contrário daquelas, as salteñas tem recheio líquido, meio adocicado e quente. Para comê-las bem, sem se sujar e sem se queimar, é preciso imitar um boliviano: arrancar uma pequena ponta da massa e usar uma colher para comer, ou tomar o recheio das salteñas, e só depois comer a massa.
A comida que primeiro chegou ao Pari foi o anticucho, levado pela primeira boliviana a se instalar naquela praça, a senhora Berta Valdez, que, se pode dizer, é a responsável por tudo o que se seguiu até agora. Foi ela que, em 1990, montou uma pequena churrasqueira ali na praça para vender o anticucho e despistar a enorme solidão que sentia fora de sua pátria - obteve enorme sucesso em suas duas empreitadas. Quanto ao anticucho, trata-se de um espetinho de coração, só que de boi.
Utiliza pouquíssimo sal e, pela tradição indígena, parece que os cozidos são imersos apenas numa espécie de água salobra. Os cozidos normalmente são perfumados, podem levar especiarias, ervas, mas quase nada de sal. Temperos, como cebola e alho, também não são utilizados. A carne de lhama também nos é meio estranha, escura, forte e meio dura, lembra a do carneiro.
Não há nenhuma influência italiana, nem nos ingredientes, nem no modo de preparo, o que para nós, de modo geral, é uma tristeza. Mas tem o frango, que é largamente utilizado. O “pollo” pode ser degustado nas ruas de La Paz sob muitas formas: cozido, frito, com salsichas, com legumes. O mais apreciado são os fritos vendidos em saquinhos de papel. Podem não ser saudáveis, nem muito gostosos, mas são perfeitos para acompanhar a cerveja boliviana Paceña, muito boa, bem encorpada, líquido brilhante. Só não espere que esteja gelada, pois os bolivianos bebem cerveja fria.
Dica da semana
O creme de maionese é delicioso e, quando feito em casa, com a habilidade que o processo requer, fica ainda melhor, mais leve e mais fresco. Com a vantagem que se pode ainda acrescentar temperos e ervas, seguindo a vontade dos que vão se deliciar.
Tudo indica que a maionese tenha sido criada, meio por acaso, pelo duque de Richelieu, por volta de 1756 na França. Mas se tornou notavelmente conhecida quando um alemão, Richard Hellmann, levou a receita para os Estados Unidos. A mulher dele utilizava a maionese para temperar as batatas então vendidas na delicatessen do casal. Bem, não é preciso mencionar nem o sucesso, nem a marca que o alemão Richard Hellmann leva a quase todos os lares brasileiros.
O único inconveniente da maionese feita em casa é o risco da contaminação do ovo cru, pela salmonela. E isso não é brincadeira. Mas, há uma técnica que mata a possível bactéria e ainda assim possibilita a utilização do ovo como se cru estivesse: cozinhe o ovo por e-xa-tos 5 minutos e 20 segundos após a fervura. Depois, retire-o da água imediatamente e coloque em água gelada.
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