No último dia 17, Gustavo Novaes Carrijo comemorou o terceiro ano de sua nova vida. Depois de um acidente automobilístico que quase lhe tirou a vida, esse francano de 30 anos, que viveu os últimos seis anos em Portugal -onde trabalhou com os astros da seleção portuguesa, como Cristiano Ronaldo, Deco, Pepe e Nani -precisou redesenhar sua vida. Voltou para Franca, onde tudo começou.
Desportista desde criança, Gustavo logo arriscou os primeiros chutes no futebol e os primeiros arremessos de basquete. Aos 10 anos, porém, descobriu a natação, pela qual abandonou os outros esportes. Competiu em vários campeonatos, como os Jogos Regionais e Jogos Abertos do Interior.
Aos 18 anos, resolveu trocar a dedicação às piscinas pelo estudo e pelo trabalho. Começou o curso de educação física nas Faculdades Claretianas, de Batatais, e arrumou emprego em uma loja do Franca Shopping.
Logo se transferiu para a Unifran, deixou o trabalho no shopping e abriu sua primeira academia. Mas Gustavo ainda não estava satisfeito. Acostumado a desafios por causa dos treinos puxados da natação, resolveu encarar a provocação que alguns amigos e um tio lhe fizeram. “Eles disseram que eu não teria coragem de deixar a comodidade de Franca e da família para tentar a sorte em outra cidade.”
Para contradizê-los, em pouco tempo Gustavo transferiu seu curso para o Centro Universitário Moura Lacerda de Ribeirão Preto e partiu para lá atrás de trabalho. Atuando como professor e personal trainer, aos poucos Gustavo foi conquistando seu espaço na cidade. Nesse período, conseguiu entrar para a equipe do grupo Body Systems, representante no Brasil da neozelandesa Les Mills, a maior academia do mundo em número de alunos.
Quando finalizou o curso de educação física, em 2006, Gustavo já estava com sua carreira bastante desenvolvida. Percebeu que tinha experiência suficiente e decidiu-se por um novo desafio, dessa vez na Europa. Optou por Portugal, em função da facilidade da língua e de algumas dicas recebidas de uma amiga que já estava por lá.
Em 2006, com a mesma disposição com que fora para Ribeirão Preto quatro anos antes, Gustavo aterrissou no aeroporto de Lisboa. Para sua surpresa, em duas semanas já estava empregado em Leiria, uma pequena cidade localizada na região central de Portugal.
Em 2009, já morando e trabalhando em Lisboa, sofreu o grave acidente que mudou sua vida. Depois de seis meses em quase completo repouso, voltou para sua academia, onde por obra do acaso ficou cerca de dois meses trabalhando com a seleção portuguesa de futebol que disputou a Copa de 2010.
Em 2011, Gustavo voltou para Leiria. Já bastante experiente na área do fitness, abriu sua própria academia. Problemas com o sócio lá e com a família aqui o trouxeram de volta a Franca em março deste ano. Pronto para recomeçar tudo outra vez.
Comércio da Franca - Pelo visto você não gosta muito de ficar parado. Vai para Batatais, volta para Franca, vai para Ribeirão e depois vai para Portugal...
Gustavo Carrijo - Pois é, acho que foi meu aprendizado na natação. Como lá você é constantemente desafiado a abaixar seu próprio tempo, acho que me acostumei a desafiar e ser desafiado. E funciona! Eu adoro desafios.
Comércio - Você sentiu alguma dificuldade em Portugal?
Gustavo - Nenhuma. Quando cheguei, agi da mesma forma que em Ribeirão. Comecei a distribuir meu currículo e em menos de duas semanas já estava trabalhando. Uma amiga que estava em Leiria me ajudou com alguns contatos e lá acabei ficando. Além do trabalho, eu logo encontrei minha primeira e única namorada portuguesa, a Kelly, que tinha uma academia de dança e para quem essa minha amiga trabalhava. De forma que não senti muitos problemas de adaptação. Foi tudo muito tranquilo.
Comércio - E como são os portugueses em termos de malhação? São mais ou menos empolgados que os brasileiros?
Gustavo - Menos, bem menos. Apesar de eles gostarem bastante da empolgação dos brasileiros. Nossas aulas estão sempre mais cheias do que as aulas dos professores portugueses. E justamente por isso, porque a gente vai para o meio da turma, incentiva, grita, brinca e tenta o tempo todo mexer com a moçada. Os professores portugueses são mais parados. Mas os alunos também são mais parados, o que obviamente pode ser explicado pelo clima. No Brasil, o sol e o calor quase o ano todo fazem com que as pessoas queiram estar sempre em forma para usar as blusinhas, shorts e camisetas. Nos EUA, essa cultura do corpo também é forte, mas não se compara ao Brasil. Em Portugal, por conta do inverno mais longo, o pessoal já é mais parado. Eles se preocupam com o corpo quando vai chegando o verão. Então, você não pode puxar muito, do contrário a moçada não aguenta. Por isso tive que adaptar minhas aulas, o que me fez perceber que o fitness no Brasil é inigualável.
Comércio - E como foi o acidente que mudou sua vida?
Gustavo - Eu já estava em Lisboa. Trabalhava no Club L, a maior academia do país, com cerca de 4 mil alunos, e uma das empresas do grupo Teixeira Duarte, que mexe também com hotelaria e outros negócios. Em um determinado final de semana, fui convidado para dar umas aulas e animar a moçada na praia de Figueira da Foz. Quando estava voltando, um carro não obedeceu ao sinal de pare e atravessou a pista, me acertando em cheio. O carro ficou acabado e foi preciso chamar bombeiros para me tirarem das ferragens. Entre os vários estragos, tive uma lesão na medula, o que acabou com minha carreira de professor.
Comércio - Você não pode mais dar aulas?
Gustavo - Exato, fui proibido pelos médicos. Talvez ainda possa trabalhar o RPM, mas não com a mesma intensidade de antigamente.
Comércio - E como você se virou sozinho por lá?
Gustavo - Eu fui submetido a uma cirurgia e fiquei internado uns três ou quatro dias, não me lembro. Depois precisei ficar deitado mais ou menos um mês e a Kelly acabou me ajudando bastante. Fiquei de repouso por seis meses. Depois disso voltei para Lisboa, para o Club L, e assumi a função de coordenador.
Comércio - E como fez para sobreviver durante esse tempo em que ficou parado?
Gustavo - Como tinha carta de residência, eu podia trabalhar e lá todos os trabalhadores têm um seguro social. Então fiquei recebendo um salário que era em parte desse seguro e em outra do governo português.
Comércio - E como a seleção portuguesa que disputou a Copa do Mundo de 2010 entrou na sua vida?
Gustavo - A seleção estava concentrada em um hotel do grupo Teixeira Duarte, ao lado da academia. Certo dia, o preparador físico pediu uma sala e uma aula de RPM [programa de ciclismo indoor] para a direção da academia. Coincidentemente, não havia nenhum professor naquele momento e me perguntaram se eu poderia quebrar o galho, a despeito de meu problema de saúde.
Comércio - Mais um desafio?
Gustavo - É mais um. Eu escolhi as músicas, preparei o pen drive, subi na bicicleta e comecei a aula. Eles estavam todos plugados com fios para que a comissão técnica pudesse avaliar os batimentos cardíacos de cada um. Depois, ainda dei uma aula de alongamento para a equipe. No dia seguinte, quando eu cheguei para trabalhar, havia um recado para mim. Era uma reunião com a diretoria. Mas não era a diretoria da academia, era a diretoria do grupo todo. Aí eu gelei! Pensei comigo mesmo: o que será que eu fiz? E fui para a reunião. Quando cheguei lá, o presidente do grupo, que eu nem conhecia, me recebeu e foi logo perguntando: “O que você fez ontem”?
Comércio - E como você reagiu?
Gustavo - Fiquei mudo e gelado. O diretor me estendeu um papel para ler, perguntando como eu podia explicar aquilo. Comecei a ler e aí o sorriso foi aparecendo. Era um e-mail assinado pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, pelo Carlos Queiroz, o técnico, e pelo preparador. Eles perguntavam se poderiam me utilizar quando precisassem porque o grupo tinha gostado de mim.
Comércio - Você aceitou?
Gustavo - Eu topei, é claro. Comecei a trabalhar com eles todos os dias, mas ainda mantinha as minhas aulas. Depois, durante 45 dias, fiquei recluso junto com eles no hotel, porque em Portugal os jogadores da seleção, durante os preparativos para a Copa, ficam completamente isolados e vigiados, sem família, sem poder sair nem fazer nada sem autorização da comissão técnica. Até os telefones dos quartos são bloqueados.
Comércio - E como eram os astros milionários, principalmente o Cristiano Ronaldo?
Gustavo - É um mundo completamente diferente. Carros, viagens, mulheres, coisas de outro planeta... E o mais engraçado é que eles falavam com extrema naturalidade. “Viajei para tal lugar, depois fui para outro. Comprei um carro assim, assado, ou comprei uma mansão”... É engraçado. O Cristiano Ronaldo, uma vez, chegou dizendo que a Porsche havia ligado para ele oferecendo um carro que a empresa estava lançando, que era aquele Porsche Panamera. Imagine, eles estavam dando o carro para o cara, só para sair na mídia.
Comércio - E o Cristiano Ronaldo é metido mesmo, como parece nos jogos e na televisão?
Gustavo - De forma geral, são todos vaidosos, todos muito preocupados com a imagem. Mas o Cristiano é mais, sem dúvida. Ele, o Pepe, Simão Sabrosa e o Bruno Alves eram viciados em musculação. Se deixassem, eles não saíam da sala, moravam lá mesmo. Mas o Cristiano não é metido, pelo contrário, na convivência diária é um cara muito legal, extremamente educado, brincalhão e bastante camarada.
Comércio - E ele tem alguma regalia na seleção?
Gustavo - Ninguém tem nenhuma regalia, nem ele. O roupeiro era tratado da mesma forma que os jogadores. De forma geral, os caras são todos muito bacanas. O clima entre eles era bem legal.
Comércio - Na seleção havia três brasileiros, Deco, Pepe e Liedson. Como era a convivência entre eles?
Gustavo - Era muito tranquila. O Pepe e o Liedson eram vidrados em contar piadas de português e o Cristiano Ronaldo era um dos que mais riam.
Comércio - E você não pensou em tentar permanecer na comissão técnica da seleção?
Gustavo - Até que seria interessante, mas quando eles voltaram da Copa, o Carlos Queiroz reclamou de falta de apoio e outras coisas. Como o país estava muito decepcionado com a derrota, toda a comissão técnica foi despedida. Dos que eu conheci, não ficou ninguém por lá.
Comércio - E por que você voltou ao Brasil?
Gustavo - Eu abri a minha própria academia em Leiria, mas tive problemas com o meu sócio. Como minha família estava passando um momento difícil e meu pai estava precisando de mim aqui no escritório, eu resolvi voltar.
Comércio - Quais são os planos?
Gustavo - Vou continuar aqui no escritório com meu pai. Mas quero também atuar em minha área. Aquelas aulas eu não posso mais dar. Mas quero montar um programa de treinamento para pessoas que, a despeito de não serem atletas, gostam de treinar pesado.
Comércio - E Portugal?
Gustavo - É um país maravilhoso, que me acolheu muito bem. Recomendo a todos que conheçam. Lá aprendi a tomar um bom vinho, algo que não pode faltar mais em minha casa. Lá fiz grandes amigos. Mas agora eu só volto lá para visitar as pessoas e os lugares que conheci.
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