Nas proximidades do Velório São Vicente de Paula, onde estive para me despedir de amigo apressado, fui abordado por simpático senhor, certamente com alguns anos menos que eu.
– Professor, como vai?
– Vou bem, obrigado.
– Eu leio seus artigos no jornal, gosto muito.
– Fico feliz, obrigado.
– Eu queria agradecer por ter colocado o nome do meu pai na história do Ronanzinho.
– Como? O nome do seu pai?
– É. Meu pai chamava Astrogildo.
– Ah, que pena, eu sinto muito. Mas o Astrogildo que eu citei era o pai do meu amigo Ronan.
– Ah, então o pai dele também chamava Astrogildo? O meu também. Trabalhou muitos anos lá no Brejinho... ele era o barreireiro.
Despedimo– nos depois de conversa curta e, desde então, intriga– me mais esta coincidência.
Em minha primeira tentativa de escrever um romance, idealizei uma grande metáfora; comparar o comportamento humano ao dos astros, fixando identidades e dessemelhanças. Almejava, no fundo, que meu leitor compreendesse que o homem, mesmo quando não o sabe, caminha em direção a Deus como o sistema solar se aproxima, cada vez mais, da estrela Vega. Procurei, para realização de minha tese, classificar o homem em três etapas de desenvolvimento: na primeira, quando ele está inconsciente por completo da sua sina e da estrada a percorrer; na segunda, quando, impulsionado por conflitos, movimenta– se desordenadamente, à procura de sentido para a vida; e, por último, quando ele caminha sem tropeços, parecendo ser conhecedor do norte e dono do seu futuro.
Durante meses tentei inventar um nome para meu protagonista. Por entender que a maioria dos homens se encontra na etapa do conflito e da busca, do rodar incessante, do desnorteamento, queria que simples nomes sintetizassem tudo isso. Fracassei por inteiro. O mais perto que cheguei do meu desejo foi no nome Astrogildo que eu pensava ter inventado. O Astro ficava claro, o leitor que descobrisse que Gildo pretendia remeter a giro, a coisa que não para de girar.
O tempo passou. O pretenso romance ficou resumido a originais. Apenas o título pomposo sempre me agradou: Viagem para Vega.
O tempo passou e depressa. E não é que, trinta anos depois, descubro que o pai do meu amigo Ronan se chamava Astrogildo? E não é que agora descubro outro Astrogildo na mesma região do Brejinho, na mesma região da Fazenda Limeira, na mesma região da cidade de São Tomás de Aquino?
O tempo passa, e continuo aprendendo, descobrindo: as coisas existem desde sempre. Nós apenas as descobrimos, apenas as desvelamos.
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