As greves são reconhecidamente um direito do trabalhador. Gostemos ou não, faz parte do jogo democrático. A despeito de atuar na esfera pública ou na privada, todos têm o direito de lutar por melhores salários e condições de trabalho. Dentro de determinados limites, sobretudo no que diz respeito aos funcionários públicos, esse direito é inclusive garantido pela Constituição Federal.
Porém, no mundo mais complexo de hoje as coisas não são tão simples quanto parecem. Se existe uma legalidade na base dessas reivindicações, ou até mesmo certa justiça, não é por isso que não se possa discuti-las de maneira mais aprofundada, buscando os fatores políticos, éticos e morais que também contemplam essas questões, sobretudo no que diz respeito ao tamanho do Estado e seus custos para toda a sociedade.
Se olharmos para as últimas décadas, vamos perceber que durante o governo de Fernando Henrique Cardoso houve uma clara contenção de despesas no setor público federal, tanto em nível de contratações como também em termos salariais. Foi o início da tão prometida e propalada reforma do Estado brasileiro, comandada pelo então ministro Bresser Pereira. Nesses oito anos de governo, os salários ficaram estagnados e praticamente não houve concursos públicos, o que com certeza dificultou a vida de muitos funcionários e de suas famílias.
Ao contrário, porém, nos oito anos de governo de Luis Inácio Lula da Silva a tendência se inverteu e a União passou a contratar de forma mais intensiva e a negociar com mais liberdade os aumentos salariais. Os números finais de seus dois mandatos mostram que a despesa destinada à folha de pagamento do funcionalismo foi uma das que mais cresceram no período.
Em 2010, o gasto da União com pessoal atingiu R$ 183,3 bilhões. Em 2002, esse mesmo gasto não passava de R$ 75 bilhões, em valores correntes. Sem considerar a inflação do período, as despesas cresceram 144%, um salto bastante significativo, que propiciou ao funcionalismo federal um ganho real de 56%, bem acima da elevação do custo de vida no referido período.
A intenção desse raciocínio, certamente, não é discutir o mérito ou o valor desses funcionários. Em tese, é de se esperar que os serviços prestados pelo governo sejam sempre de boa qualidade e para isso bons salários e boas condições de trabalho são sempre fundamentais, da mesma forma como acontece na iniciativa privada.
A questão principal é saber se a sociedade está disposta a continuar arcando com mais esse aumento substancioso para os funcionários públicos federais, uma vez que a fatura a ser cobrada em termos de impostos por esse Estado bastante perdulário será sabidamente alta em futuro bem próximo. Além disso, seria importante refletir também se vale a pena um Estado tão grande e caro com tantos problemas que precisamos enfrentar no âmbito municipal.
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