Colegas, o road movie de Marcelo Galvão que tem como protagonistas portadores da Síndrome de Down, sai consagrado como o grande vencedor do Festival de Gramado. Além do Kikito de melhor filme, recebeu um Prêmio Especial do Júri para seus três atores principais (Ariel Goldenberg, Rita Pokk e Breno Viola) e direção de arte. O momento mais emocionante da festa - e que ficará guardado na história do festival - foi a subida ao palco dos três para agradecer o troféu recebido. Ariel repetiu o que vinha dizendo em entrevistas: “Aos olhos dos homens somos downianos, aos olhos de Deus somos normais.”
O filme tem muitos méritos. Não é apenas uma peça de inclusão social, politicamente correta. Pelo contrário. Contempla, sem muitos disfarces, o preconceito contra os Downs, e o faz com muita graça e nenhuma autocomiseração. Estrelado por uma trinca de atores portadores de Síndrome de Down, eles fogem de uma instituição, roubam o carro de um dos funcionários, promovem assaltos a mão armada e vão parar na Argentina em busca dos seus sonhos. Um deles deseja ver o mar, que não conhece; o outro quer voar; a mocinha pretende se casar.
Engraçada e alto-astral, a comédia foi aplaudida em cena aberta várias vezes. No fim, aplausos confirmaram que o alvo do diretor havia sido atingido. “Quero que, depois de algum tempo, vocês esqueçam que eles são downianos, e os vejam como jovens como outros quaisquer”, disse ele na apresentação. Um dos rapazes, interpretado por Ariel Goldenberg, é cinéfilo, pretexto para encher o filme de referências cinematográficas, que vão de Hitchcock a Fellini, passando por Tarantino a Fernando Meirelles. Não são artificiais. Encaixam na narrativa e divertem quem gosta de cinema.
Com trilha sonora composta por músicas de Raul Seixas, consegue completar, de forma ficcional, o trabalho já iniciado pelo documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel: fazer com que o público enxergue os downianos como pessoas como as outras, com seus conflitos, alegrias, sonhos e fraquezas.
O segredo do filme é tratar os personagens de maneira desdramatizada, evitando transformá-los em coitadinhos. São confrontados a situações cruas, cheias de preconceitos e reagem à altura. “O forte do filme é esse humor meio negro. A gente usa os termos politicamente incorretos, como forma de denunciar os preconceitos mesmo”, diz o diretor Marcelo Galvão.
Outro concorrente brasileiro apresentado foi o gaúcho Insônia, de Beto Souza, uma comédia romântica que mescla adolescentes e adultos. É a história de Claudia, garota de 15 anos, filha de pai argentino que veio morar no Brasil. Ela perdeu a mãe quando criança e tem dificuldades de relacionamento. Comunica-se no chat com um personagem cujo nickname é Insônia, daí o título. A vida de todos muda de figura quando entra em cena Déia, interpretada por Luana Piovani. A mostra competitiva de longas estrangeiros prosseguiu com Diez Veces Venceremos, de Cristian Jure (Argentina), e Leontina, de Boris Peters.
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