Quem nunca pegou um ônibus lotado e se deparou com uma pessoa falando alto ao celular ou ouvindo música sem fones de ouvido? Algumas cidades brasileiras, como Pernambuco, Belo Horizonte e Jaraguá do Sul (SC), por exemplo, já elaboraram leis que obrigam os passageiros a usar fones de ouvido para que aparelhos celulares, tocadores de MP3 e afins não atrapalhem outros usuários dos coletivos. A última cidade a aprovar uma lei municipal contra a poluição sonora nos ônibus foi Campinas, que desde o final no mês de julho orientou que cobradores e motoristas acionem a polícia em caso de descumprimento da lei, justamente por entender que tal prática incomoda os outros passageiros e ainda pode prejudicar a saúde.
Para verificar como os francanos usam o celular dentro do ônibus, a reportagem do Comércio embarcou em um ônibus da linha Centro-Aeroporto III. Logo na entrada, encontrou um homem que discutia em voz alta no telefone com sua mulher, enquanto aguardava em fila para passar pela catraca. Na ligação, ele expôs detalhes de sua vida conjugal em alto e bom som. Questionado, disse que nem havia reparado na sua falta de discrição. “Acho que é meu jeito de falar mesmo. Nem percebi que estava falando tão alto assim. É que liguei um pouco mais tarde que o combinado para minha mulher e ela ficou brava comigo”, disse, meio sem jeito, o vendedor de sapatos Paulo Cesar de Lima, 23.
Ele contou que sempre fala assim no celular e nunca ouviu queixa dos outros usuários do ônibus. “Nunca ninguém veio me dar esse toque, acho que é porque hoje em dia quase todo mundo usa o celular para ouvir música, inclusive, muitos jovens gostam de escutar no último volume.” Ele ainda alegou que precisa falar alto ao telefone para fugir dos ruídos do próprio ônibus. “Talvez se estivesse mais silencioso aqui dentro eu pudesse falar mais baixo.”
A São José, detentora da concessão do serviço em Franca, contrata, anualmente, uma empresa que mede a intensidade sonora dos ônibus da companhia. Na última medição, realizada em dezembro de 2011, foi constatado que um veículo ligado e em movimento gera um volume de até 72 decibéis. “Essa medição é uma exigência do INSS e ajuda a avaliar o ambiente de trabalho dos motoristas e cobradores do ponto de vista de saúde do trabalho”, disse o chefe de Departamento de Recursos Humanos da empresa, Oswaldo Luis Marques.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza como limite para o ouvido humano um som de 65 decibéis. Acima disso, o organismo começa a sofrer. Para se ter uma ideia do que representam 72 decivéis, o tráfego pesado de uma grande avenida de São Paulo alcança 80 decibéis, enquanto o barulho da turbina de avião gira em torno de 120 decibéis.
Segundo Luís Marques, o volume de poluição sonora vem diminuindo com o passar dos anos, devido à evolução dos modelos de veículos usados e do isolamento acústico dos motores. Mas, ao mesmo tempo, vem crescendo o número de pessoas que usam o celular como aparelho de som dentro dos ônibus. “Eu prefiro colocar o meu celular com o fone de ouvido e ouvir minha música do que ouvir a música dos outros. Quase sempre é funk ou rap e não gosto”, disse a vendedora Maísa Pereira da Silva, 25.
Segundo a reportagem constatou, apesar de se sentirem incomodados com o volume das conversas ao celular ou com a música alta dos celulares, os usuários de transporte coletivo em Franca preferem se calar a entrar em conflito com os outros passageiros.
O cobrador Elson Batista Melo, 50, que trabalha há 18 anos no ambiente barulhento dos circulares francanos, disse que nunca foi necessário parar o ônibus ou ligar para a polícia por conta de problemas relacionados a celulares. “Quando identificamos algum passageiro que está incomodando, pedimos, educadamente, para que ele diminua o volume.”
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