Maria é glorificada


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A festa de hoje, principal da Virgem, recebeu no início do século IV, o nome de “dormição”, enquanto passagem para outra vida. Só mais tarde foi chamada de Assunção

Desde os primeiros séculos, conhece-se esta festa tanto no Oriente como no Ocidente. Somente em 1950 foi proclamado verdade ou dogma de fé por Pio XII. Celebramos esta festa da páscoa de Maria dando graças ao Pai que eleva a humilde mulher, Maria de Nazaré, e, nela, nos oferece o sinal da vitória definitiva de toda a humanidade, pela força da ressurreição de Jesus Cristo. Com a Virgem Maria, cantamos as maravilhas que o Senhor fez por nós, fazendo-nos participantes do mistério pascal do seu Filho. Somos chamados a celebrar esta vitória, vivendo o projeto de Jesus que vence, pelo poder da entrega da sua vida, a força enganosa do dragão, que devora e destrói todas as possibilidades duma vida humana digna e feliz. Quais os ensinamentos da Palavra de Deus para nós?

PRIMEIRA LEITURA
Uma certa devoção mariana limitou-se a apresentar-nos uma Nossa Senhora distante de nós e do mundo. A Maria do evangelho é muito mais próxima: percorreu um caminho de fé às vezes obscuro e cansativo, não entendeu tudo e, rapidamente, pediu explicações ao anjo; maravilhou-se do que se dizia de seu filho mas, em várias circunstâncias, notam-no os evangelhos, não entendeu as escolhas que Jesus fazia. O desígnio de Deus a respeito dela e a respeito de seu filho permaneceu, também para ela, misterioso e velado até que chegou a luz da Páscoa.

A cena descrita na primeira leitura (Apocalipse 11) é grandiosa. No céu aparecem dois sinais: “uma mulher revestida de sol, com a lua sob seus pés e sobre a cabeça, coroa de doze estrelas. O segundo é “um enorme dragão vermelho”, uma serpente gigantesca, dotada de força descomunal capaz de arrastar do céu um terço das estrelas. A mulher está grávida, grita por causa das dores do parto e dá à luz um filho. O dragão coloca-se para devorar a criança recém-nascida. Tem pressa de eliminar porque sabe que “está destinada a governar todas as nações com cetro de ferro”.

A mulher parecia vencida, mas Deus intervém: toma o filho e o transporta para o céu, enquanto a mulher busca refúgio no deserto. Quem são os três personagens? O menino é, evidentemente “Cristo que é destinado a governar as nações”. A mulher parece ser Maria. Mas não é isso. João não pensava nela. Quem conhece o Antigo Testamento sabe que a “mulher” representa a comunidade de Israel e é a esse povo que se referem as dozes estrelas. O sol indica a glória divina, que cobre esse povo. O dragão vermelho simboliza o mal, as forças contrárias à salvação, o inimigo de Deus e do seu plano de amor, que se atira contra “o Messias” desde o dia do seu nascimento - não o acontecimento em Belém, mas aquele do dia da Páscoa, em que Jesus, saindo do sepulcro, revelou-se como Cristo, como Messias.

O dragão está definitivamente vencido, mas se debate, e com a cauda, atira um terço das estrelas do céu sobre a terra, que representam cristãos do tempo de João, os quais, no momento da luta e da perseguição, não se mantiveram fiéis à fé e não resistiram às tentações do maligno, ou seja, às seduções e aos prazeres deste mundo. A mulher que foge e procura refúgio no deserto é a Igreja. O canto final “Agora chegou a salvação”, é um convite à esperança.

SEGUNDA LEITURA
O trecho (1ª Carta aos Coríntios 15) quer ajudar-nos a compreender o significado da vitória de Cristo sobre a morte. Paulo, como muitos de seu povo, entendia que a vinda do Messias teria dado origem a dois reinos que se sucederiam: o reino do Messias seguido pelo reino de Deus. O reino do Messias situa-se na história da humanidade e termina no fim do mundo. Durante esse tempo o Messias destrói progressivamente, todos os seus inimigos; o último adversário é a morte. O que entende Paulo com essa expressão de inimigos a serem submetidos? Os inimigos de Deus não são os homens, mas aquelas formas de morte com as quais devemos confrontar-nos neste mundo: a fome, a nudez, a doença, a ignorância, a escravidão, o medo, o egoísmo, o pecado.

Quando as potências do mal forem destruídas, quando a construção do reino do Messias estiver completa e todos os inimigos de Cristo forem vencidos, então Cristo entregará ao Pai o seu Reino. Terá início, então, o reino de Deus, por toda a eternidade.

EVANGELHO
No Evangelho (Lc 1), Maria, grávida, visita Isabel, também grávida. Encontra-se as duas mulheres do povo, escolhidas pelo Senhor, cada uma com uma vocação específica, num lugarejo sem recursos e sem importância. Maria, aclamada pela prima como bendita entre as mulheres, recita uma oração de louvor pelas maravilhas que o Senhor realizara nela, as quais seriam plenificadas na vida da criança que estava em seu ventre.

Maria é aclamada com uma bem-aventurança: “Feliz és tu que creste, porque se cumprirá o que o Senhor te anunciou”. Seu coração transborda em canto e oração. A sua resposta é ação de graças, é celebração profética e jubilosa, resumo de toda a história da salvação. Ela é filha de Abraão e pertence a seu povo. Em Maria, neste encontro entre o Antigo e o Novo Testamento se unem a promessa e a realização e, ao mesmo tempo, se manifesta a predileção histórica do Senhor pelos pobres e pequenos.

O cântico de Maria apresenta um projeto, que é o mesmo de Jesus: transformar o modo antigo e opressor de viver, no qual a prepotência e a autoafirmação humanas saem sempre ganhando, em uma ordem nova em que triunfa a justiça para os ofendidos, os desprezados e excluídos. O Filho de Maria veio para inaugurar o novo relacionamento entre todas as coisas.

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br

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