Julia, a grande mãe da gastronomia


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Se viva estivesse, a senhora Julia Child teria completando 100 anos de idade no dia 15 de agosto. Recebeu homenagem até do Google -Julia se transformou num Doodle Google (desenho na página de abertura do buscador) na semana passada, conforme muitos de nós vimos. Não sei se terei alguma novidade a respeito de Julia, depois do delicioso filme protagonizado por Meryl Streep: Julie & Julia, muitos a conhecem. Mas adoro Julia e, sob pena de repetir o que muitos já sabem, quero falar dela por aqui. Ela foi uma grande personalidade porque mudou um conceito arraigado: salvou o povo americano da própria sorte e comida. Claro, nem todos aprenderam, mas seus ensinamentos estão por lá, é só querer.

Julia Child é autora de inúmeros livros sobre a culinária francesa. Usando uma linguagem acessível e modo de preparo bastante detalhados, convocava qualquer um a cozinhar a tão complexa comida francesa. Ela dizia que qualquer um seria capaz porque ela própria se descobriu cozinheira tardiamente, aos 32 anos. E, quando foi obrigada a se mudar para Paris, fez o Le Cordon Bleu, numa época em que só os homens eram aceitos. Por isso, teve que ser melhor que todos, e foi.

Conseguiu publicar seu primeiro livro em 1961 e não parou mais, seguiram-se outros 19 livros de culinária. Seus livros foram responsáveis pela melhora da comida de milhares de lares americanos; suas dicas de “como fazer” foram repetidas em todos os Estados Unidos. Teve o merecido reconhecimento, foi uma celebridade no seu tempo, transformou-se em apresentadora de TV de grande sucesso e prestígio, vindo a ganhar três prêmios Grammy nessa categoria.

Julia foi aquele tipo invejável de pessoa que os atos a precedem, não foi preciso barulho ou autopromoção, além da rara consciência de que o “bem feito” deve ser encontrado em qualquer lugar. O exemplo fala mais: a americana Elinor Ostrom, ganhadora do prêmio Nobel de Economia, quando perguntada, alguns dias após o comunicado, sobre como a sua vida mudara depois do prêmio, respondeu: “‘O que sei é que as roupas que passei continuam na lavanderia porque não tive tempo de guardá-las, e isso me incomoda um pouco”. É normal que pessoas capazes de grandes feitos não se importem com a patuleia, é tão admirável quando essas mesmas pessoas conseguem ter noção de sua humanidade! Coisa rara...

Julia era uma mulher grande, fisicamente, tanto que foi impedida de ingressar na carreira militar. Desajeitada, parecia impossível se acertar na cozinha. Mas, com um humor inabalável e vontade de ferro, sem poder ter filhos, exerceu uma estranha maternidade com suas panelas, depois com seus telespectadores.

Ela não escreveu apenas para donas de casas, grandes chefs de cozinha até hoje a reverenciam - Antony Bourdan diz que é incrível como todas as coisas parecem começar e terminar nela. Eu o entendo. Bourdain nasceu e cresceu nos Estados Unidos, levando uma vida classe média sem nenhuma aventura gastronômica. Numa viagem à França descobriu a razão que norteia sua vida até hoje: a boa comida. Por isso, se sente tão próximo ao que Julia escreveu e apresentou. E mais, ao que parece, ambos tiveram a alma despertada por um prato de ostras.

Não a conheci e infelizmente não tenho seu livro, ainda. Mas conheço algo de seus ensinamentos, pois Regina, mulher do dr. João Roberto (proprietários do extinto restaurante La Piramyde, de Ribeirão Preto), tem um livro de Julia autografado. O casal morou durante anos nos Estados Unidos e Regina teve aulas dadas pela própria Julia. Certamente, enquanto servíamos a cheese pie da Regina, aqui no Azul, também correu um perfume de Julia Child.

Dica da semana
Vamos falar aqui do tempura, uma das receitas mais atraentes da culinária japonesa.

Todas as vezes que leio receitas ou segredos de comidas japonesas o faço com certa cerimônia, porque me parece que assim o fazem todos os japoneses.

Com o tempura não seria diferente. Tempura não é fritura. É uma técnica de cozimento, a arte de cobrir um alimento com uma fina, quanto mais fina melhor, crosta crocante, que permite que o alimento cozinhe no próprio vapor, preservando todas as suas características.

Não tem segredo. Aliás, tem um: o frio. A farinha e a água da massa devem estar geladas, mas é a prática que te dará orgulho de seus tempuras.

Primeiro, separe os alimentos, limpe-os, corte-os e deixe-os a seu lado. Aqueça uma panela com óleo de gergelim não torrado - o torrado tem muito gosto e interfere no gosto dos alimentos.

Faça uma massinha com 1 ovo inteiro gelado, 200 g farinha de trigo gelada e 400 ml de água gelada.

Empane qualquer coisa, frutas, legumes, frutos do mar, observe o ponto de cada um, tenha paciência, bote para escorrer em papel toalha e saboreie.
 

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