Chefe dos investigadores da Dise afirma que foco são os traficantes


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ESFORÇO - Amato: “Conseguir informações sobre o tráfico é muito mais difícil porque as pessoas temem represálias”
ESFORÇO - Amato: “Conseguir informações sobre o tráfico é muito mais difícil porque as pessoas temem represálias”

A mesa cheia de papéis espalhados por todo lado denuncia que ali é grande o volume de trabalho. Na sala do chefe da equipe de investigadores da Dise (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes), Wellington Amato, de 52 anos, o entra e sai é uma constante. O telefone também não pára de tocar. Do outro lado, normalmente, é alguém querendo saber qual rumo seguir.

Amato, como é conhecido, é um dos investigadores mais antigos de Franca. São 29 anos dedicados à polícia. Começou a carreira como soldado da Polícia Militar, influenciado por um cunhado. Nove anos depois, a pedido do delegado João Batista Palim, hoje aposentado, resolveu prestar um concurso para investigador. Passou e começou a trabalhar na DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Franca em 1992. De lá, passou para a Dise, voltou a DIG e, em 2006, depois de se envolver na fuga de um preso, foi designado para o 3º Distrito Policial, de onde saiu em 2010 para assumir o posto de chefe da equipe de investigadores da Dise.

No episódio da fuga, Amato foi acusado de facilitar a fuga de Marcelo Henrique Rodrigues, 28, o Marcelinho, acusado de aplicar golpes em vendedores e compradores de veículos. Segundo relatos da época, Amato teria sido visto em um bar tomando cerveja com o criminoso, que, depois de ser preso por policiais militares, acabou fugindo quando era levado por Amato e um outro policial para a cadeia. O investigador respondeu a uma sindicância e acabou inocentado. Sobre o fato, ele preferiu não falar, apesar da insistência da reportagem.

Nas quase três décadas de trabalho, Amato participou e comandou importantes investigações, como a que culminou na prisão de Célio Ernande Pereira, condenado como o tarado da Unesp, que atacava universitárias. Também foi um dos primeiros policiais a chegar ao local da chacina dos Facion, em Batatais, logo após Carlos Fabiano Facion, sua namorada Edna Emília Milani e um menor de 13 anos matarem os pais de Carlos e três dos seus irmãos (Elaine Cristina, grávida de 9 meses, Lucas, de 14 anos, e Tália, de 4). Outras duas crianças ainda foram agredidas, o irmão de Carlos Luís Henrique, então com 7 anos, e a sobrinha Laira (filha de Elaine) com apenas 3.

Mesmo com 29 anos de carreira, Amato disse que ainda não pensa em se aposentar. “Enquanto tiver forças, vou continuar trabalhando.”

Comércio da Franca - O senhor convive diariamente com a violência. O que mudou no mundo do crime em Franca nestas três últimas décadas?
Wellington Amato -
O crime sempre acompanha o crescimento da cidade. Há 30 anos, o tipo de crime que a gente via na cidade era um, hoje é outro. O tráfico de drogas também evoluiu muito. Só que Franca, por seu porte, ainda é considerada uma cidade tranquila.

Comércio - Mas como era esse universo do crime há 30 anos e como está agora? O grau de violência não aumentou? As ocorrências não estão mais espalhadas?
Amato -
Antigamente, a grande maioria das ocorrências era relativa a furtos, principalmente de veículos e residências. Hoje o roubo, que envolve um grau maior de violência, e o tráfico de drogas já superam os furtos. Apesar de a gente trabalhar intensamente aqui na delegacia, não dá para negar que as ocorrências envolvendo entorpecentes também cresceram.

Comércio - O senhor chefiou a equipe de homicídios da DIG e hoje é chefe dos investigadores da Dise, o que é mais fácil: lidar com traficantes ou assassinos?
Amato -
Eu gosto mesmo é de investigar. Eu passei uma boa época na DIG. Aqui na Dise também me sinto muito bem trabalhando no combate ao tráfico, dando nossa parcela de contribuição à sociedade. Não fazemos apenas investigação. Também damos apoio às famílias que procuram informações sobre o tráfico. Nosso projeto agora é montar um setor de atendimento psicossocial aqui na delegacia.

Comércio - O senhor ainda não me respondeu. É mais fácil lidar com traficantes ou assassinos?
Amato -
Lidar com o crime é sempre complicado. Mas aqui na Dise o trabalho exige mais. O crime quando envolve o tráfico é mais articulado por isso exige mais dedicação, um trabalho de investigação muito maior. Sem contar que conseguir informações sobre o tráfico é muito mais difícil porque as pessoas têm medo de represálias.

Comércio - O senhor falou sobre represálias. Já recebeu algum tipo de ameaça por parte de traficantes?
Amato -
Eu nunca fui ameaçado. Acho que, no fundo, o bandido sabe que a prisão é um risco que ele corre. Quando a pessoa é presa e sabe que é culpada, não há reação. Nunca recebi nenhum telefonema mais sério, nenhuma ameaça que pudesse ser mesmo considerada. Agora ouvir que fulano disse que vai matar um policial ou coisa assim é normal.

Comércio - Como é que funciona o trabalho de investigação aqui na Dise?
Amato -
Aqui nós trabalhamos com um sistema de informações. Somos em dez investigadores que se dividem em cinco grupos. Cada um fica responsável por uma área da cidade como os Distritos Policiais. Essas duplas fazem uma investigação preliminar para identificar o que está ocorrendo e onde. Depois nos reunimos aqui na Dise para montarmos o plano de apreensão e juntada de provas, em que todos participam.

Comércio - E como são montados esses planos? Quem define a estratégia que será adotada?
Amato -
Tudo é decidido com base nas informações colhidas preliminarmente. Com base nisto, analisamos o que ainda precisa ser feito e quem são os mais aptos para executar as tarefas, como, por exemplo, seguir determinada pessoa, fazer a filmagem, fotografar. O que mais conta nessas horas é mesmo a força de vontade dos investigadores em resolver o caso. Não temos muitos recursos. Normalmente, trabalhamos mais de 12 horas por dia. Não temos rotina. Fazemos o que é preciso ser feito.

Comércio - Quantas investigações estão em andamento na Dise?
Amato -
Eu calculo que cada um desses grupos deva ter sob sua responsabilidade uns 15 casos. É um número alto. Ainda sofremos com a falta de pessoal para nos auxiliar. Hoje somos 10, mas o ideal seria que houvesse pelo menos mais 20 investigadores.

Comércio - Na sua avaliação, quem está vencendo na luta da polícia contra o crime, principalmente, no que diz respeito ao tráfico de drogas?
Amato -
Eu acredito que a Polícia. A partir do momento em que o Estado começar a perder, a sociedade estará perdida.

Comércio - Mas se é o Estado quem está vencendo, por que o tráfico continua avançando? Por que sempre que vocês prendem um traficante logo surge outro para substituí-lo? O senhor não tem a sensação de estar enxugando gelo?
Amato -
Eu vejo que a reincidência de criminosos quando se trata de tráfico de drogas é realmente muito grande. Ele é preso e condenado. A lei é aplicada, ele cumpre a pena e volta a delinquir. A verdade é que nós não conseguimos chegar ao fim. Mas nós combatemos o tráfico. Nós estamos agindo e prendendo.

Comércio - Sim, mas como é essa sensação de que, apesar de todo o seu trabalho, o tráfico persiste? O senhor acredita que um dia o tráfico de drogas vai acabar?
Amato -
Eu acho que, enquanto não houver um investimento maior por parte do governo em educação e em áreas sociais, o tráfico não vai terminar. Para um jovem que cresceu nas comunidades mais carentes, o exemplo de uma pessoa bem sucedida é o traficante que vive cercado de mulheres bonitas, que se veste bem, que tem bons carros. Essa é a figura que ele sabe que é possível alcançar porque ter acesso a uma vida melhor de outra forma será muito difícil. É isso que precisa mudar. Precisamos investir mais em educação, em condições melhores de vida e de trabalho para que esses jovens entendam que existem outras alternativas. Quanto a mim, estou fazendo a minha parte e não desanimo não.

Comércio - O tráfico hoje é mais presente em que região da cidade?
Amato -
O tráfico hoje está onde existirem pessoas. Não tem mais aquela divisão de classe social ou local. Se você procurar direito, sempre onde existir um grupo de pessoas vai existir o tráfico.

Comércio - Qual o perfil dos traficantes de Franca?
Amato -
Não existe mais apenas uma média comum. Hoje existem pessoas da alta sociedade que traficam, pessoas que trabalham e traficam e pessoas da periferia que traficam. Há homens, mulheres, crianças e idosos envolvidos com a venda de drogas.

Comércio - Existem muitos pontos de venda de drogas que são de conhecimento público. Um exemplo é o quadrilátero da Santa Cruz. Por que ainda há tantos locais que sabidamente comercializam drogas e não são fechados pela polícia?
Amato -
Porque fazemos a prisão de um traficante e logo uma outra pessoa assume. A gente está agindo, mas o tráfico também tem suas estratégias. É aí que o trabalho de inteligência, de investigação faz diferença. Porque não adianta eu pegar um cara que está apenas vendendo uma quantidade pequena se não pegar quem está fornecendo a droga para ele e muitos outros. Não temos condições de investigar todo mundo que está envolvido com entorpecentes. Nosso foco são os grandes fornecedores, são as pessoas que alimentam esse tráfico.

Comércio - Sei que o assunto não o agrada, mas há seis anos o senhor se envolveu num caso que acabou resultando em uma sindicância da Polícia. Foi afastado das suas funções na DIG depois que um preso que estava sob sua custódia fugiu em circunstâncias suspeitas. O que, de fato, aconteceu? E como o senhor vê esse episódio hoje?
Amato -
Sobre este assunto, eu realmente não gostaria de falar.

Comércio - Por quê?
Amato -
Porque acho que, na minha carreira, há muito mais coisas a serem lembradas e que valem a pena serem discutidas.  

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