São cinco horas da manhã. Ele desperta. Levanta-se devagar, observa a mulher que repousa profundamente, evita pequenos ruídos, mas a porta do quarto está emperrada e aquele rangido o irrita, pois tudo é silêncio e ele sabe que toda a casa ainda dorme.
Faz curta caminhada até a cozinha e, em poucos minutos, está segurando um copo cheio de café, que espalha seu aroma por todos os cantos. Acende um cigarro, fuma-o até a metade, lança a guimba ao ar e sente-se criança, vendo a pequena brasa bruxulear no espaço.
Tira o carro da garagem, faz o sinal da cruz e segue para Minas Gerais. As gotículas de orvalho saltam lépidas do para-brisas, fazendo com que o homem assista àquele espetáculo de sedução em que a noite se entrega submissa ao sorriso largo do dia.
Enfim, chega à cidade de São Tomás de Aquino. Há poucas pessoas nas ruas, mas todas são conhecidas e todas sabem seu destino final. Estica o braço para fora, saúda um e outro gritando:
– Oh minero!
Desce do carro, estica o corpo maltratado pela viagem e caminha entre as pequenas alamedas. Não é necessário endereço. Sabe-o de cor. Em poucos minutos, encontra o que procura. a
Tira um lenço do bolso e, antes que inicie o processo de limpeza da foto presa à lápide, pede a bênção ao pai. Depois, põe-se em diálogo. Fala dos filhos, dos netos que o veem como um brinquedo, dá notícias da mulher, comenta que prosperara com a venda de alguns terrenos e casas, omite todas as amarguras que o ano lhe conferiu. Por fim, diz ao pai que tem uma piada nova, é interrompido três ou quatro vezes pelas próprias gargalhadas, enxuga os olhos com as costas das mãos, ainda está sorrindo quando se despede, passando a mão com carinho no retrato já desbotado. Faz caminho inverso, percorrendo as alamedas a passo ligeiro, entra no carro e logo está na rodovia, sente-se ansioso durante a viagem, imaginando os abraços que receberá pelo dia dos pais.
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