Forças do governo da Síria que sitiam a cidade de Alepo atingiram pessoas que estavam em uma fila para comprar pão e mataram ao menos 10, afirmaram ativistas nesta quinta-feira. "Três bombas acertaram a rua próxima à padaria", disse Mohammad Hassan, ativista baseado em Alepo. "Havia pessoas com suas crianças lá. Era como um rio de sangue". O Observatório Sírio pelos Direitos Humanos, grupo opositor sediado em Londres, disse que pelo menos 20 pessoas foram mortas nesta quinta-feira apenas em Alepo, onde milhares de soldados do governo tentam retomar a cidade dos insurgentes. Já outro grupo opositor sírio, o Comitês de Coordenação Local, afirmou que 49 pessoas foram mortas hoje em Alepo. Nesta quinta-feira, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que deixará o mandato da missão de observadores militares na Síria expirar no domingo e que apoiará uma missão civil na Síria.
Nas últimas três semanas, centenas de sírios foram vitimados pelos conflitos em Alepo, a maior cidade da Síria, com 2,5 milhões de habitantes. As tropas do regime do presidente Bashar Assad tentam expulsar os rebeldes, que controlam diversos bairros. Faltam alimentos e os civis, incluídas muitas mulheres e crianças, se aglomeram em filas perto das padarias todas as manhãs para tentar comprar pão. Corpos de homens mortos por francoatiradores estão abandonados nas ruas, principalmente no bairro de Salaheddine, onde os combates entre os soldados regulares e os insurgentes são mais intensos.
O grupo Comitês de Coordenação Local disse que a maioria das 49 pessoas mortas hoje em Alepo perderam a vida no bairro de Qadi Askar. Grupos de ativistas sírios costumam dar números conflitantes a respeito de baixas. É quase impossível verificar no local os números porque a mídia estrangeira foi banida da Síria.
Os combates não se restringem a Alepo, mas se espalharam 50 quilômetros para o norte, até a fronteira turca, e também para o oeste, onde insurgentes, às vezes curdos, controlam cidades menores. O governo sírio está usando cada vez mais helicópteros de ataque e caças MiG para bombardear cidades controladas por rebeldes, matando um número crescente de civis. Na quarta-feira, um caça bombardeou um bairro residencial na cidade de Azaz, perto da fronteira turca. O grupo de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch, dos EUA, afirmou que mais de 40 pessoas foram mortas e pelo menos 100 feridas, a maioria mulheres e crianças.
O grupo Human Rights Watch disse que conseguiu enviar representantes a Azaz, duas horas após o bombardeio, e disse que 40 pessoas foram mortas. "Esse ataque foi terrível, matou e feriu muitos civis e destruiu um quarteirão residencial inteiro", disse Anna Neistat, diretora de emergências do grupo. "Mais uma vez, o governo sírio atacou com um desprezo total pelas vidas dos civis".
Em Damasco, a chefe humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU), Valérie Amos, disse que a guerra civil síria está "virando mais intensa e a violência mais indiscriminada". Ela fez um apelo a ambas as partes que protejam os civis. "A situação humanitária piorou muito" disse Valérie, desde sua última visita à Síria em março deste ano. Naquele mês, a ONU estimava que 1 milhão de sírios estavam desalojados ou precisavam de alimentos e auxílio humanitário crítico. "Agora, são 2,5 milhões que precisam urgentemente de alimentos", disse ela.
O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, que está em visita à Jordânia, disse que alimentos e ajuda humanitária são necessários, mas "também é preciso tomar uma atitude política para afastar Bashar Assad do poder, precisamos de uma ação militar conduzida pelo exército insurgente".
O chanceler francês disse que Assad está "massacrando o próprio povo. O quanto mais cedo ele for embora, melhor". Já a televisão estatal síria informou nesta quinta-feira que Assad nomeou três novos ministros para o gabinete, para a saúde, indústria e justiça. Assad também indicou um novo governador para a província de Alepo. Também nesta quinta-feira, a televisão estatal noticiou que o exército libertou três jornalistas que estavam no cativeiro após serem capturados por rebeldes, na cidade de Al-Tal, logo ao norte de Damasco.
FIM DA MISSÃO DE OBSERVADORES MILITARES - O Conselho de Segurança da ONU disse nesta quinta-feira que a missão de observadores militares na Síria expirará no domingo e que a organização apoiará um escritório civil, que concentrará os esforços para acabar com a guerra civil que já dura 18 meses.
O embaixador da França na ONU, Gerard Araud, disse que o Conselho chegou à conclusão de que não existem mais as condições para a manutenção de uma missão de observadores militares na Síria. Araud disse que o governo sírio não parou de usar armamentos pesados e não houve redução significativa da violência desde abril, quando a missão começou a operar na Síria, após o plano de paz mediado pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan. "As condições para a continuidade da Missão de Supervisão da ONU na Síria não foram cumpridas", declarou Araud.
CLÃ LIBANÊS SEQUESTRA MAIS SÍRIOS - O poderoso clã xiita libanês Al-Mikdad anunciou nesta quinta-feira que sequestrou mais cidadãos sírios e prometeu outros raptos em retaliação à captura de um membro da família por rebeldes na Síria. Na quarta-feira, homens armados do clã levaram 20 sírios e um turco que estavam no Líbano.
A onda de sequestros piora o cenário da guerra civil na Síria, aumentando os temores que o conflito cause o ressurgimento da violência no Líbano, país com seu próprio histórico de guerras civis. O porta-voz da família, Maher al-Mikdad, disse nesta quinta-feira que "se algo acontecer com Hassane (aquele que está preso na Síria), nós vamos matar o refém turco e muitos outros. Mas vamos começar com o turco."
O conflito na Síria ganhou contornos sectários. Os rebeldes são predominantemente sunitas, enquanto o presidente Bashar Assad e seu círculo são alauitas, um ramo dos xiitas. De forma parecida, o Líbano enfrenta antigas rivalidades entre as comunidades xiitas e sunitas.
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