Após seis dias, campeão de boxe volta para casa em Guarulhos (SP)


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Eram 4 horas da manhã do dia 10, na sexta-feira em que o lutador de box Esquiva Falcão, 22, lutaria a semifinal do peso médio (até 75 kg) na Olimpíada de Londres. Enquanto o País curtia a expectativa de testemunhar a primeira final do esporte, seu colega de academia e de seleção brasileira, David Lourenço Costa, 20, arrasado, pegava seu Fiesta vermelho.

Em vez de seguir para o Centro de Treinamento da Seleção Brasileira de Boxe, em Santo Amaro, na zona sul, como fazia diariamente, acabou mergulhando em um buraco bem fundo, de onde sairia só seis dias depois. Deprimido, nesse período, ele se recolheu à casa de um amigo e não deu sinais de vida, sem telefonar para ninguém, levando seus familiares ao desespero. Só avisou onde estava na noite da quarta-feira, depois da enorme repercussão de seu sumiço.

Lutador prodígio, integrante da seleção brasileira de boxe, campeão mundial juvenil e medalha de ouro na Olimpíada da Juventude em 2010, David e Esquiva sempre treinaram juntos. Esquiva acabou conquistando a vaga olímpica de peso médio ao ganhar medalha de bronze no Mundial deste ano. David, eliminado nas quartas-de-final no Pan-americano do ano passado, acabou preterido.

"Acho que isso mexeu com a cabeça dele. Ainda não sentamos para conversar. Mas a pressão para ele sempre foi muito grande e acho que o fato de ele não ter ido para Londres, junto com a delegação, acabou deixando ele muito triste", diz o pai e treinador de boxe amador, Ailton Cardoso, de 42 anos.

Durante a quinta-feira, David ainda parecia aéreo, triste e surpreso com a repercussão de sua fossa. Ele pediu desculpas pelo transtorno e pela confusão que provocou. Na quarta-feira, depois de anunciar o desaparecimento do filho, seu pai recebeu mais de 500 ligações no celular. Na quinta-feira, no começo da tarde, já chegavam a 200. "Eu estava deprimido. Vou precisar de apoio de todos e do meu esforço para conseguir chegar bem no Rio de Janeiro", disse David, evitando se estender nas explicações.

Falou pouco, dando respostas monossilábicas, antes de se retirar para descansar. O pai, Ailton, tentava entender o que passava na cabeça do filho. Conversando com treinadores e autoridades policiais, concluiu que o primeiro passo era conseguir um psicólogo para o filho.

Primogênito em uma família de sete crianças, David começou a ser treinado pelo pai aos 4 anos. Como faltava dinheiro, ele precisava socar câmeras de pneu de caminhão sob o sol forte porque a academia não tinha teto. Nessas condições, aos 12 anos, passou a competir no circuito amador. Foi duas vezes campeão infantil nos torneios da Federação Paulista de Boxe, evoluindo até chegar aos títulos mundiais. "Ele é especial e tem todos os atributos para estar no Rio de Janeiro em 2016", diz o presidente da Federação, Newton Campos.

David vive uma rotina sacrificada e estressante. Acorda todo dia às 4h da madrugada. Em seu carro, atravessa a cidade, saindo de Guarulhos para chegar em Santo Amaro e treinar pesado por 6 horas. Volta para Guarulhos só às 18h, quando se arruma para ir à escola e voltar só às 23h. Está acabando o 3º ano do ensino médio e pretende cursar faculdade.

Em casa, os outros cinco irmãos também lutam boxe, inclusive a irmã Débora, de 18 anos. Igor, de 14, campeão brasileiro, é considerado uma promessa. Denílson, também com 14, foi adotado este ano. Ele morava na rua e treinava na academia de David em Santo Amaro. Como era bagunceiro, acabou sendo expulso pelos professores. Não tinha mais onde morar e foi adotado por Aílton. Atualmente, ele também treina na academia Olhos de Águia, do pai de David, com mais 20 alunos.

Envolvido nessa rotina intensa e desgastante, em que se respira boxe todos os segundos de sua vida, é que David sentiu a estrutura de seu mundo desmoronar. Como se a luta de Esquiva revelasse um suposto fracasso em sua trajetória pessoal. Foram raras às vezes em que ele ficou na rua depois da meia-noite, enquanto os amigos iam para a balada. Será que valeu à pena abrir mão de tudo para no final não alcançar a meta traçada? "Torcemos muito pelo Esquiva e ficamos muito felizes com a força que ele deu para o boxe no Brasil. Mas talvez o David quisesse ter viajado com eles também para Londres, mesmo que fosse só para acompanhar", arriscava o pai, tentando ainda compreender os tais sentimentos indecifráveis.

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