Deus, que nos reúne hoje, nos fala sobre a Palavra, “alimento” para a nossa vida diária
Hoje é Dia dos Pais. Rezamos para que Deus, nosso pai, seja o “alimento” constante na vida da nossa família, iluminando as orientações que os pais devem transmitir aos filhos. Eis o que as leituras e o Evangelho das Celebrações Eucarísticas de hoje nos reservam, como mensagens de nosso Pai.
PRIMEIRA LEITURA - I RS 19
Quem de nós, alguma vez, sentiu-se tão cansado, tão desanimado e tão amargurado, a ponto de gritar: “Basta, eu não aguento mais!”. Também para o profeta Elias aconteceu de encontrar-se num desses momentos dramáticos e como nos relata a leitura chegou a um tal ponto de desespero que pediu a morte.
Estamos em Israel, tempo do rei Acab (850 anos A.C.). Há prosperidade no comércio, constroem-se cidades e palácios, mas o bem-estar é acompanhado por injustiças sociais, exploração dos pobres, corrupção religiosa e moral. A rainha Jezabel, jovem filha do rei de Tiro, muito bonita, é tão inteligente quanto perversa. Eis que, de repente, entra em cena Elias, um homem destemido que tem a ousadia de opor-se abertamente a seus projetos. Suas palavras são como um azorrague, suas denúncias queimam como fogo, faz ameaças, opera milagres, invoca castigos do céu, faz com que durante três anos não caia chuva sobre a terra, mas, a certo ponto não aguenta mais e se entrega. Sente que, para fortalecer sua fé, deve repetir a experiência espiritual do grande libertador de Israel, Moisés.
Nós também vivemos situações difíceis; há momentos em que nos desencantamos até com a religião e com a vida das comunidades. Os 40 dias da viagem de Elias pelo deserto, representam nossa vida. Nós também sentimos fome (de pão, mas também de justiça), sede (de água, mas também de amor, de compreensão, de carinho), não sabemos que atitudes tomar, sentimos desânimo, inquietação e, em certas horas, até desespero. Deus, porém, não se esquece de nós. O que fazemos? Desabafamos com algum amigo, vamos derramar lágrimas nos ombros de alguém, na certeza de encontrar alívio, ajuda e esperança. Esquecemos que a verdadeira luz, o conforto, a energia, a esperança nos são comunicados pelo pão da Palavra.
SEGUNDA LEITURA - EF 4
Antigamente os escravos recebiam na pele uma marca com ferro em brasa, indelével, como se faz com o gado. Tinha como objetivo marcar os que pertenciam para sempre a um determinado senhor. Paulo se serve dessa figura para explicar qual é a condição do cristão. No batismo diz ele este recebe na própria carne um selo, não gravado a fogo, mas impresso pelo Espírito Santo. Portanto, pertence definitivamente a Deus. As consequências morais que disso deriva são expressas, antes, em forma negativa: há vícios que devem ser evitados; e depois, em forma positiva: há uma série de virtudes que devem ser praticadas.
E quais são esses vícios? A rispidez indica as expressões ofensivas dos que estão sempre nervosos e agastados, descarregando sobre os outros a culpa de suas próprias frustrações. A indignação é a reação de quem se sente ofendido ou privado de alguma coisa que lhe cabe. A ira diz respeito às reações acintosas que procedem daquelas pessoas que alimentam no próprio coração, rancores e desejos de vingança. A gritaria é a reclamação que se faz presente durante as rixas, as discussões violentas e as desavenças. A maledicência é a intriga provocada pela inveja. A malignidade indica o conjunto de todos os outros vícios cuja lista seria longa demais. A parte positiva, ao contrário, esclarece como deve ser o comportamento do cristão: cordial, afável e inspirado em sentimentos de misericórdia, a primeira das características de Deus.
EVANGELHO - JO 6.
“Ninguém jamais viu a Deus”, afirma João, no começo do seu Evangelho. Como então é possível conhecê-lo e saber quem ele é? Ao longo dos séculos os homens sempre manifestaram desejo ardente de “ver a face de Deus”. Os cristãos conseguem “ver” o Pai não através de raciocínios filosóficos ou contemplando a natureza, mas contemplando uma pessoa: Jesus. Ele é o rosto humano de Deus: quem o vê, “vê o Pai”. Jesus concorda que jamais alguém viu o Pai, mas afirma que ninguém poderá chegar ao Pai se não passar através dele. É observar o que ele faz, com quem anda, a quem repreende, a quem defende, de quem se aproxima, a quem acaricia, por quem se deixa tocar, por quem se deixar beijar... Seus gestos, suas escolhas, suas preferências são as de Deus.
Por que, na procura de Deus, alguns enveredam por caminhos errados ou se extraviam por atalhos secundários, e outros encontram Cristo, acolhem-no pela fé, se alimentam da sua palavra e chegam a Deus por caminhos planos e seguros? Jesus responde: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair”. A descoberta de Jesus-pão-do-céu é um dom gratuito de Deus.
A todos Deus concede a possibilidade de conhecê-lo: “Todos serão ensinados por Deus”, garante Jesus. Quem o encontra, com certeza, é um privilegiado. Todas as manifestações de Deus, porém, constituem um dom imenso, maravilhoso. As respostas a esses dons, a essas revelações mais ou menos perfeitas, são diferentes. Nem todos as acolhem com alegria e gratidão. Hoje, como no passado, as posições tomadas diante de Cristo são diferentes: passa-se da acolhida à indiferença, à recusa, à oposição raivosa. Então, nos resta perguntar a nós mesmos: deixamos-nos iluminar pela Palavra de Deus, ou então, como os judeus do tempo de Jesus, recusamos o “pão do céu” e continuamos aferrados às nossas ideias e às imagens deformadas que temos de Deus, às tradições e práticas religiosas ultrapassadas e inúteis?
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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