José Chiachiri Filho é uma pessoa bem conhecida em Franca, um de nossos cidadãos ilustres. Historiador por formação, é professor aposentado da Unesp. Político atuante até bem pouco tempo, já foi vice-prefeito de Franca na gestão de Maurício Sandoval, candidato aos cargos de vereador e deputado federal, além de diretor do Arquivo Histórico Municipal durante os dois mandatos do petista Gilmar Dominici.
Intelectual provocador e bem humorado, é autor de três livros sobre a história de Franca e também colaborador assíduo da imprensa francana. No Comércio da Franca, publica há mais de duas décadas crônicas, artigos opinativos e textos históricos.
Todas essas atividades, no entanto, tiveram inspiração nos caminhos percorridos por seu pai José Chiachiri, também figura ilustre de Franca. Chiachiri pai também foi jornalista, intelectual e historiador, a despeito de não ter formação superior. Mesmo não tendo se arriscado em cargos políticos, como seu filho, José Chiachiri foi um importante protagonista de seu tempo, influenciando e interferindo ativamente nos destinos de nossa cidade entre os anos de 1930 e 1970. Se fosse vivo, Chiachiri pai teria feito 100 anos na última quinta-feira.
Nascido em Vargem Grande do Sul, José Chiachiri tornou-se francano por opção. Filho de libaneses, chegou por aqui ainda jovem, acompanhando a família que buscava melhor sorte no comércio de nossa cidade. Depois de algum tempo trabalhando atrás do balcão da Casa Primavera, mostrou que não tinha muito jeito com vendas.
Para desgosto dos pais, deixou de lado o comércio e voltou-se para a sua grande paixão, o jornalismo, atividade que já havia experimentado no jornal A Imprensa, em Vargem Grande.
Em Franca, começou colaborando no Comércio da Franca, mas em 1937 criou seu próprio veículo de comunicação, a revista A Sertaneja, em homenagem a Carmelita Andrade Chiachiri, a mulher com a qual se casaria e que tem hoje 96 anos de idade.
Em 1940, Chiachiri parou com a revista e criou o Diário da Tarde, em sociedade com Francisco Adelino. Segundo seu filho, este foi o primeiro jornal diário de Franca. Em1956, por problemas financeiros precisou vender o jornal ao grupo político do ex-prefeito de Franca Onofre Gosuen.
A partir daí, mesmo que um pouco por acaso, acabou encontrando sua terceira paixão, para além de sua “sertaneja” e do jornalismo: o Museu Histórico de Franca.’
Entre 1957 e 1972, ano de sua morte, Chiachiri se dividiu entre o trabalho de diretor do jornal semanal Aviso de Franca, ligado à Igreja Católica, e a efetiva criação do Museu Histórico, que sem sede nem acervo, existia apenas no decreto assinado por Gosuen.
Nessa conversa descontraída que manteve com o Comércio, José Chiachiri Filho, hoje com deficiência visual, contou um pouco da história de seu pai em Franca, as atividades culturais, profissionais e empresariais desenvolvidas por ele, as polêmicas e as brigas em que se envolveu durante sua vida jornalística e todo o trabalho dedicado à montagem do Museu Histórico.
Comércio da Franca - Quem era José Chiachiri?
José Chiachiri Filho - Meu pai era antes de tudo um jornalista. Um homem polêmico e idealista que nunca fugiu dos conflitos e das disputas a que o jornalismo o obrigava. Mas era também um homem simples, de bom coração e sem pendores acadêmicos, o que lhe permitia compreender muito bem o sentimento do povo. Apesar de não ter estudado para além do ginasial, tinha muita leitura. Conhecia profundamente as literaturas francesa e brasileira e era um apaixonado por Machado de Assis. Esse gosto pela leitura, obviamente, o tornou um bom e hábil escritor. Escrevia com extrema facilidade. Além disso, era uma pessoa autêntica, que aprendeu ao longo da vida a libertar-se das convenções. É claro que sou suspeito, mas ele era com certeza uma pessoa especial. Mais que um pai, tornou-se um grande amigo, do qual eu sinto muita falta até hoje.
Comércio - O senhor disse que como jornalista seu pai era bastante polêmico? Como era a atuação dele à frente do Diário da Tarde?
Chiachiri Filho - Ele era polêmico e briguento. Em função disso, arranjou muitas brigas e fez muitas inimizades. Certa vez, chegou a apanhar de um engenheiro que trabalhava na Prefeitura, por conta de umas matérias que vinha escrevendo. Eles se cruzaram na rua, se estranharam e o cara, que era bem grandalhão, deu-lhe um soco na cara e saiu fora. Mas ele não deixou por menos. Começou a pegar no pé do sujeito. Escarafunchou a vida dele, descobriu que ele não era formado e acabou fazendo tanta pressão que o cara acabou indo embora da cidade. A manchete do dia seguinte à agressão, que chegou a ter repercussão até em São Paulo, estampava: “Chipanzé agride jornalista”. Em outra ocasião, ele teve uma briga violenta com um delegado, creio que no final de década de 1950. Ele foi chamado pelo policial para noticiar a morte de uns ladrões de gado que a polícia havia pegado. Os ladrões já estavam mortos e, segundo a versão da polícia, eles haviam se suicidado. Ao chegar ao local, porém, meu pai percebeu que os ferimentos não eram compatíveis com o suicídio e denunciou a existência de um esquadrão da morte. O delegado processou meu pai, mas na briga acabou transferido para Casa Branca. Lembro-me também do episódio que envolveu os leiteiros da cidade e a Jussara. Proibidos de entregar o leite de porta em porta, como faziam até então, os leiteiros foram obrigados a vender seu leite para a Jussara, já que essa empresa era a única com capacidade para pasteurizá-lo. Em função disso, se revoltaram. Meu pai sabia da importância da pasteurização, mas ficou do lado dos leiteiros, porque levou em conta o problema social que tal medida causaria, tanto pelo momento quanto pela forma como foi implementada. Na época, a briga foi feia. Veio polícia de fora e teve até tiro. O pai do professor Luiz Cruz, inclusive, levou um tiro.
Comércio - E como começou a história do Museu Histórico?
Chiachiri Filho - Por incrível que pareça, foi meio ao acaso. Apesar da dedicação que meu pai devotou à idéia de se montar um museu em Franca, eu posso afirmar que tudo foi consequência de um impasse ocorrido no momento em que ele estava vendendo o Diário.
Comércio - Como assim?
Chiachiri Filho - É que por um lado, meu pai queria e precisava vender o jornal. Ele precisava trocar alguns equipamentos e renovar outros, mas não tinha dinheiro. Por outro, porém, ele ficou com medo de ficar sem nada para fazer e não encontrar outro emprego. E disse isso para o [Onofre] Gosuen, que representava o grupo de compradores e era o prefeito na época. Para não perder o negócio, o Gosuen pensou em alguma saída. Ele disse ao meu pai: “Você gosta de história, não é? Então vamos criar um museu, que a cidade já está precisando”. Depois que assinou o decreto de criação do museu [em 1957], ele nomeou o meu pai como diretor. Aí começou uma história de amor que durou 15 anos. Ele foi responsável por encontrar uma casa adequada e depois começou a correr atrás das peças para compor o acervo, que hoje é um dos mais completos da região.
Comércio - E ele teve apoio da Prefeitura e da cidade para fazer tudo isso?
Chiachiri Filho - Sim, teve muito, principalmente da população que doou várias peças, pois perceberam o carinho e o cuidado com que ele tratava o museu. Havia uma senhora negra, creio que ex-cozinheira de alguma fazenda de café, que certo dia entregou ao meu pai um quadro com o retrato do Getúlio (Vargas). Mesmo sem achar muito interessante, ele colocou o quadro na parede. Depois disso, essa senhora passou a frequentar regularmente o museu, viu o quadro na parede e passou a doar várias porcelanas, cristais e vários outros utensílios.
Comércio - Como era Franca naquela época, do ponto de vista cultural?
Chiachiri Filho - De certa maneira, é possível dizer que havia um pouco mais de entusiasmo pela leitura, já que o único meio de comunicação era a escrita, o texto, sem contar que não havia quase nada para fazer. As pessoas liam mais, fosse por meio de livros, jornais ou revistas. Havia os grêmios literários e, proporcionalmente, existiam mais bibliotecas. Uma delas, inclusive, a da AEC-Castelinho, foi meu pai quem montou. Felizmente, os livros foram transferidos neste ano para o Arquivo Municipal, mas ficaram por vários anos encaixotados. Antigamente, também, havia mais debates. Hoje, tudo foi substituído pela rapidez e velocidade das imagens, da televisão e da internet.
Comércio - E o senhor acha que isso é ruim?
Chiachiri Filho - Não é bom nem ruim. O problema é sempre o exagero. Vivemos hoje uma ditadura do tempo. Uma cultura medida, limitada pelo tempo, sem muita preocupação com o conteúdo. É tudo para consumo rápido, para deleite imediato, sem necessidade de crítica e reflexão. É a famosa cultura de massa. De certa forma, é importante porque incorpora mais pessoas no universo da cultura e não apenas uma elite, como era antigamente. Mas é ruim porque tem essa etapa da massificação sem qualidade, sobretudo nesse momento de deslumbramento pela tecnologia que ainda vivemos, algo que se não começarmos a mudar rapidamente vai nos deixar com o dedo grosso de tanto apertar botões, mas em compensação também vai nos deixar com um cérebro muito pequeno.
Comércio - Quando seu pai faleceu, em 1972, o senhor não pensou em tomar o lugar dele e continuar o trabalho no museu?
Chiachiri Filho - É claro que sim. Na época, eu era professor em período integral da Unesp e eles me liberaram para dirigir o museu e continuar ministrando minhas aulas. Mas, infelizmente, o Hélio Palermo [ex-prefeito] não deixou...
Comércio - E como está o museu hoje em dia?
Chiachiri Filho - Precisando de reforma. Já existem algumas goteiras que logo poderão comprometer a estrutura e, consequentemente, o acervo.
Comércio - O senhor dirigiu o Arquivo Municipal por oito anos. Por que saiu de lá?
Chiachiri Filho - Por que o Sidnei [Rocha], quando assumiu a Prefeitura, disse que eu não era de sua confiança. Escrevi até um artigo naquela época, agradecendo imensamente por isso [risos]. Mas isso são águas passadas. Hoje nos damos muito bem. Eu gosto do Sidnei, só não concordamos politicamente.
Comércio - E já que desviamos um pouco para a política, em quem o senhor irá votar nas próximas eleições para prefeito?
Chiachiri Filho - Eu sou do PV, todos sabem, mas para efeito dessas comemorações do centenário de meu pai, vou votar e fazer campanha para quem prometer que vai reformar o museu.
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