Intolerância religiosa


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Pensássemos todos da mesma maneira e não habitaríamos um planeta moralmente tão atrasado como o nosso. E precisamente por força do nosso atraso moral é que não aceitamos a maneira como os outros pensam. E, a propósito, no caderno ‘Ilustrada’ do jornal Folha de S. Paulo de 21/04/12, sob o mesmo título que encima este artigo, o Dr. Dráuzio Varella tece judiciosa crítica à intolerância de adeptos de uma religião ao modo de pensar de seguidores de outras crenças.

A intolerância à liberdade de pensamento contraria toda proposta do Evangelho de Jesus, cumprindo-nos ter na mais alta conta que, se a liberdade é o atributo mais caro ao ser humano, a de pensar é a mais preciosa. Entre os seus raciocínios, afirma acertadamente que ‘todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição dos seus corpos’. Mostra-nos o articulista um exemplo de aspecto do pensamento humano, que, particularmente, merece ser respeitado porque, inato e intuitivo, não resulta da influência do meio ou da educação.

Aqueles que, por intolerância, queimaram pessoas, tentando queimar ideias, evidentemente que afrontaram os ensinamentos do Cristo, que nos recomenda a paz, a concórdia, a tolerância, o amor: ‘por muito vos amardes é que reconhecer-vos-ão meus discípulos’. O amor, na sua expressão mais pura, é tolerante com a maneira de pensar e agir das criaturas humanas, todavia sempre empenhar-se-á na fraternal verdade cristã de que se beneficiam crentes e ateus.

Citados por uma inteligência lúcida e esclarecida, por certo, os exemplos de intolerância contidos nas análises a que nos reportamos não se referem ao Espiritismo, mas, na sua forma contextual podem induzir leitores a entendimento equivocado quanto a conceitos espíritas. Assim, para afastarmos possíveis confusões que pudessem originar-se de interpretações surrealistas, mormente no que se refere à menção de que alguém, possivelmente espírita, dir-se-ia ‘reencarnação de Alexandre, o Grande’, só para afirmar-se reencarnacionista, ou à referência a ‘encruzilhada (...), velas e galo preto’, é-nos lícito prevenir lembrando que o Espiritismo não adota qualquer ritual, nem tampouco admite preocupação com vidas passadas.

Se, de um lado, as falhas que alguns crentes cometem não invalidam a religião que dizem seguir, de outro, cumpre-nos, a todos, respeitar a crença, tanto quanto a descrença de cada um. Ao final das suas considerações, acrescenta o Dr. Dráuzio: ‘...os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam’, expressão que reafirma o ensinamento de Jesus no ‘conhece-se a árvore pelos seus frutos’. Vale dizer: o verdadeiro religioso é aquele em que a religião reflete-se nos seus próprios atos.

De todas as ponderações expendidas, resta-nos refletir ainda: se, entre os homens, há prevalência do sentimento religioso e, mesmo assim, reina o mal, o que seria da humanidade, sem Deus e sem Jesus?

Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca

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