O pão do céu


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Este domingo é de grande festa para a nossa Diocese de Franca, pois estamos recebendo a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida e do Representante do Papa no Brasil, Dom Giovanni D’ Aniello, celebrando a 21º Festa Diocesana da Família

A Palavra de Deus nos convida a entender os sinais do próprio Deus em nossa vida que, de diversos modos, multiplica as suas graças em nosso coração. Quais as lições que a Palavra nos oferece?

Primeira Leitura (Ex 16)
Começa com as murmurações do povo que, depois dos primeiros dias de entusiasmo pela liberdade conquistada, sente saudade do Egito: lá ele era escravo, mas tinha comida em abundância. A fome lhe faz até lembrar de coisas que nunca teve (está sonhando com... panelas de carne!).

É essa também a experiência de cada cristão. Depois da alegria inicial por causa da conversão e da decisão de seguir a lógica do evangelho, logo bate a saudade da forma de vida antiga. Não era uma vida digna do ser humano, mas sempre tinha seus aspectos agradáveis... Diante das queixas do povo, nossa expectativa seria de uma reação severa por parte de Deus, mas ele não se comporta assim, ele não castiga, responde enviando o maná.

É natural que na vida do cristão também haja períodos de desânimo; não deve causar surpresa que também nos passe pela mente a ideia de que talvez seja melhor voltar às práticas pagãs. Deus não fica irritado por causa das nossas fraquezas, não fica indignado por causa das nossas mazelas. Não só não nos castiga por causa das nossas hesitações, mas se aproxima ainda mais de nós e, como fez com Israel, nos mostra novas provas do seu amor, novos sinais da sua presença. Nós também sentimos muita “fome” na nossa vida: fome de pão, mas também de liberdade, de amor, de paz, de fraternidade, de respeito, de estima, de felicidade. Temos a convicção que esta fome só pode ser saciada “por toda palavra que sai da boca de Deus”?

Na oração do Pai-nosso nós não pedimos a Deus a garantia para o futuro, mas pedimos de manhã o “pão para este dia”. Quem reza desta maneira não quer acumular bens, armanezar alimentos “para o dia seguinte” enquanto os irmãos passam fome “hoje”; ele liberta o próprio coração da ganância de possuir bens e da preocupação angustiante pelo dia de amanhã.

Os rabinos do tempo de Jesus também aconselhavam a não se deixarem dominar pela inquietação e pela ansiedade por causa do alimento. Rabbi Eliezer ensinava: “Quem tem o que comer hoje e diz: ‘o que comerei amanhã’? É um homem de pouca fé”. Ninguém hoje pode considerar-se um “salvador”. Mesmo o homem mais comprometido no serviço em favor dos outros continua sendo um humilde beneficiário, junto com os outros irmãos, da salvação que vem do céu.

Segunda leitura: Efésios 4.
Continua a leitura da segunda parte da Carta aos Efésios e, portanto, também a passagem deste dia contém conselhos práticos. Os cristãos – ensina Paulo – continuam sempre sujeitos à tentação de voltar aos costumes pagãos, aos quais renunciaram pelo batismo. Ao contrário, eles devem sempre se lembrar que se tornaram uma nova criatura. Para dar mais ênfase a essa exortação, ele se serve da imagem do homem velho e do homem novo. Trata-se de uma comparação muito eficaz: o homem velho representa a vida de pecado, a dissolução, a avidez e as baixezas de quem se deixa seduzir pelas paixões enganadoras. O homem novo, ao contrário, representa a criatura nascida da água do batismo e completamente transformada no seu comportamento moral.

Evangelho: Jo 6.
Depois a multiplicação dos pães, a multidão quer proclamar Jesus como rei. Do ponto de vista humano este entusiasmo marca o ápice do sucesso. Parece um triunfo. Para Jesus, porém, é a mais candente das derrotas: não conseguiu que entendessem “o sinal”. Seu gesto foi mal interpretado e percebe que não será fácil desfazer a confusão. Talvez, para ganhar tempo ou, mais provavelmente, para rezar, afasta-se então para a montanha. Por que este povo está à sua procura? Jesus já entendeu: não o procura para escutar mais palavras suas, para penetrar mais a fundo na sua mensagem, para ser ajudado a compreender os gestos que ele cumpriu, mas porque comeu pão em abundância, de graça, e porque espera continuar tendo o pão garantido, sem mais precisar trabalhar. Ele quer que os seus discípulos entendam que ele não veio para transformar pedras em pães, mas para ensinar que o amor e a partilha produzem pão em abundância. Querem a repetição de um milagre, mas teimam em não querer entender o sentido do sinal.

O que fazer para não alimentar expectativas errôneas? A resposta é dada na segunda parte do evangelho: “Esta é a obra de Deus: acreditar naquele que ele mandou”. Não se pede outra coisa. A fé em Cristo não se reduz a raciocínio. Pressupõe a escolha de unir a própria vida com a dele na doação de si aos irmãos. Jesus exige confiança sem condições: eis o motivo pelo qual os judeus, antes de dar-lhe este crédito de confiança, exigem dele uma prova concreta, um grande milagre. O pão de Jesus não estraga: recolhido em cestos e guardado, pode ser distribuído novamente, perfeito a todos os que têm fome.

Mas o que é este pão do céu? Por que Jesus não o distribui logo para todos? Na última parte do trecho Jesus responde a essas perguntas. “Dá-nos sempre deste pão”, pede a multidão. Uma frase semelhante foi também pronunciada pela samaritana: “Dá-me desta água”. A mulher não conseguia entender qual era a água prometida por Jesus e continuava pensando na água do poço. Agora o povo cai no mesmo mal-entendido: não consegue separar o próprio pensamento do pão material. Jesus esclarece: “Eu sou o pão da vida: quem vem a mim não terá mais fome, quem crê em mim não terá mais sede”.

Para que a sua palavra possa comunicar salvação é necessário que ela não fique reduzida a um texto para ser lido ou analisado com todo o esmero como se procede com as doutrinas dos sábios antigos. A lógica de Cristo deve ser assimilada como o pão que se torna parte do organismo da pessoa que o ingeriu. Essas frases de Jesus não se referem ainda à Eucaristia. O pão é ele mesmo, como Palavra de Deus.

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
 

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