Tiradentes: cultura e gastronomia


| Tempo de leitura: 4 min

Mais uma vez envolvida com o belo livro de culinária brasileira da jornalista Alice Granato, Sabor do Brasil, eis que me sinto em casa: chego à querida Minas Gerais, berço emocional de muitos francanos. Lembrei-me de uma viagem que fiz com minha escola quando eu era ainda uma colegial. Embora haja em mim muitas lembranças dessa viagem, as mais marcantes foram as cores e o cheiro de Mariana, Tiradentes, e de como o tempo parecia transcorrer de forma mais tranquila. Este ano, foi a vez de minha filha fazer a mesma viagem com a escola e eis que ela se hospedou no mesmo convento que há tantos anos me aterrorizou e me fascinou - o mesmo se deu com ela. Pequenas provas de que o tempo é relativo.

Não é a toa que Alice abre o capítulo de Minas citando Guimarães Rosa: “Os gerais desentendem de tempo”.

Tiradentes é a pérola da coroa há mais de três séculos, foi ali que se iniciou o ciclo do ouro e, embora hoje isso seja apenas uma lembrança, Tiradentes continuou sendo referência cultural e, com aura intocável, sedia festivais culturais e um dos maiores eventos de culinária do país: o Festival de Cultura e Gastronomia de Tiradentes, que surgiu em 1998 e que, neste ano, vai de 24 de agosto a 2 de setembro. O festival, um grande e delicioso “mexido”, buscou sempre conjugar outros tipos de arte, reunindo chefs de cozinha e artistas conceituados em outras áreas.

A cidade já recebeu chefs de cozinha do mundo inteiro, como Espanha, França, Itália, China e Japão.

Nesse ano, o festival trará a já famosa programação de festins com chefs renomados do cenário nacional e internacional, cursos e oficinas, degustações, exposições, shows e performances artísticas gratuitas acontecendo pelos belos cantos da cidade.

A grande novidade ficará por conta das histórias da Expedição. Este ano, a equipe do evento elegeu seis capitais do país e foi para lá desbravar a culinária, a peculiaridade, os produtos de alta qualidade. Os Estados escolhidos foram: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Amazônia, Ceará e Rio Grande do Norte. A equipe do festival criou um diário de bordo e o leitor pode acompanhar onde estão escondidos esses produtos e quem são esses pequenos produtores de excelência.

Claro, são muitos os produtos mineiros, mas alguns são nossos velhos conhecidos - embora São Paulo esteja de fora da expedição, o queijo Canastra é um deles. O queijo Canastra, que encontramos por aqui, não é exatamente o de melhor qualidade, mas o conhecido como “canastrinha” e o “canastra”, que são bem gostosos, mas jamais vimos o famoso queijo “Canastra Real”. A diferença entre eles, claro, é a maturação, enquanto aqueles demoram cerca de 15 dias para maturar, o lendário Canastra Real leva até 30 dias, tem sabor mais adocicado e casca grossa bem amarela e um preço que sugere importação: a peça chega a custar R$ 160,00!

Um dos principais produtores desse queijo diz que o ótimo Canastra precisa de três coisas: vaca no pasto, água de qualidade e terreno montanhoso. Por isso, a serra da Canastra dá vida à produção desse queijo.

No festival de Tiradentes, será lançado o livro: Ingredientes e produtos do Brasil - a nova gastronomia nacional. Lá, o queijo Canastra e o queijo artesanal do Serro têm destaque especial.

Os organizadores do evento convocam moradores e turistas a se integrarem à festa, que valoriza o produto nacional autêntico, a desfrutarem um clima amistoso, saborear o melhor exemplar da substanciosa culinária mineira e se esquecer do tempo, num tempo que parece passar nunca.

Dica da semana
Molhos, bons molhos são coisa para chef de cozinha. É, normalmente, por eles que vamos aos restaurantes. É aquela coisa substanciosa, quente e repleta de sabor que não conseguimos reproduzir em casa. É muito difícil mesmo e trabalhoso, não dá pra ficar fervendo ossos e tutanos em casa...

Mas, alguns ingredientes são poderosos e conseguem emprestar forte sabor aos molhos. Um deles é o fígado de galinha misturado à linguiça de porco. Trata-se de um conhecido molho italiano de mais fácil execução, o medieval molho peverata.

Bate-se num processador a linguiça de porco e o fígado de galinha até se obter uma consistência cremosa, depois cozinha-se no azeite.

Esse molho é perfeito para aves assadas de qualquer tipo, de caça, como pato, ou domésticas. Pode-se acrescentar também o alho, o pimentão, o vinagre, mas, cuidado, para não abusar no ácido.

Na Itália, em Veneza, é esse o molho perfeito para acompanhar o pato, prato típico da noite mais importante do calendário veneziano: o primeiro sábado do mês de julho, quando se comemora a libertação da peste, doença que atingiu a cidade em 1630.
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários