Só quando as urnas forem abertas e o último voto for computado será possível afirmar quem será o próximo prefeito de Franca. Mesmo diante deste cenário de indefinição, não é errado dizer que o atual secretário de Finanças, Sebastião Manoel Ananias, tem boas chances de se manter no cargo.
Prestes a completar 68 anos, Ananias já recebeu convite de três candidatos para continuar à frente da pasta. Foi procurado pessoalmente por Gilson Pelizaro (PT), Ubiali (PSB) e Graciela Ambrósio (PP).
Ananias é filiado ao PSDB. Com o candidato do seu partido, Alexandre Ferreira, no entanto, não teve nenhum encontro para tratar do assunto. “Ele tem mandado mensageiros falar comigo, mas eu não sou homem de recado, eu não dou e não gosto de receber recado.”
Ananias é advogado, agricultor -planta café - e foi bancário no Banespa por três décadas. Também foi assessor-jurídico do Ciesp/Fiesp por 23 anos. É na vida pública, porém, que escreveu seu nome. Integrou cinco governos e passou, praticamente, por todos os setores da Prefeitura. Foi homem de confiança de Sidnei Rocha nas três administrações do tucano.
É apontado como o responsável pela recuperação financeira da Prefeitura. Em março, disputou as prévias do PSDB com Alexandre e Valéria Marson. Foi o segundo colocado. Disse que não fez campanha e que não pretendia se candidatar a prefeito.
Fato é que a disputa interna deixou sequelas. Ananias não gostou da condução do processo por parte de Sidnei Rocha, que, na sua avaliação, privilegiou Alexandre. Embora faça parte do mesmo governo de Alexandre, o secretário das Finanças deverá ficar ao lado de concorrentes dos tucanos na corrida pela sucessão municipal. “Eu não voto por comando. Voto por escolha minha. Então, ninguém vai me mandar votar em quem quer que seja.”
Em março, Ananias passou por uma cirurgia. Contraiu infecção e passou 15 dias no CTI. Disse que esteve morto e que ressuscitou. Pouco tempo depois, já estava despachando em seu gabinete. Afirmou que, se continuar no governo até o fim, entregará as finanças em dia para o próximo prefeito.
Na manhã de sexta-feira, ele recebeu o Comércio para falar sobre sua participação nas eleições de outubro. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
Comércio - Como o próximo prefeito vai receber o caixa?
Sebastião Ananias - Só posso falar do período em que eu estiver aqui. Se eu ficar até 31 de dezembro, garanto ao povo de Franca e ao prefeito que vamos fechar a administração numa situação, absolutamente, dentro da lei. Não existirá dívida, exceto, aquela do INSS que vem do passado e que está negociada. A Prefeitura fechará de maneira a permitir que o próximo governo possa começar a trabalhar a partir de primeiro de janeiro.
Comércio - Quando o senhor faz a ressalva “se ficar até o fim” é por que avalia a possibilidade de deixar a Prefeitura antes?
Ananias - Depois da experiência de saúde que passei, em que estive morto e ressuscitei com a oração que o povo me deu de presente, além do grupo médico que cuidou de mim, passei a ter a cautela de colocar sempre isto: existe o presente para mim. O futuro poderá existir. Não tenho problemas com o governo e nenhum atrito com o prefeito. É uma forma de interpretar as coisas que passei a adotar, pois não sei até quando Deus vai me permitir a graça de estar vivo e trabalhando para o bem do povo de Franca.
Comércio - Além da saúde, questões políticas podem afastá-lo da secretaria?
Ananias - Esta é uma pergunta que o prefeito tem que responder. Eu sou um ser político atípico para o padrão nacional: eu não voto por comando. Voto por escolha minha. Então, ninguém vai me mandar votar em quem quer que seja. Faço minha escolha. É assim que construí e constituí o padrão de conduta dentro da minha família. Enfrentei, num período crítico, os generais no AI5, fazendo política no velho e querido MDB, que se adulterou - o PMDB é, hoje, um partido sem moral nenhuma, sob a minha ótica. Da minha parte, não há restrição a permanecer no governo, mas podem surgir incidentes que levem quem detém o poder, no caso o prefeito, a achar que, se eu não obedecer um comando para votar em A ou B, eu devo ser afastado. Encaro isto com tranquilidade total.
Comércio - O senhor sempre afirmou que não obedece ordens do prefeito. Isto aconteceu?
Ananias - Não é neste sentido que foi colocado. O que eu disse e repito, agora, é que, quando o prefeito me convidou, nos fizemos um combinado: ele não é, não foi e nunca será meu chefe. Se eu vier a fazer parte de um futuro governo, isto vai permanecer como verdade, também, e como norma de conduta. Admitir que alguém tenha mais conhecimento do que eu, eu admito, mas que tenha mais experiência do que eu tenho de Prefeitura, é difícil de afirmar. Sou rebelde, não aceito ordens. A única pessoa que me dá ordens é a minha mulher.
Comércio - O senhor ficou frustrado pela derrota nas prévias?
Ananias - Olha, incluindo meu nome, nenhum dos três indicados pelo prefeito era da minha opção de voto. Nenhum dos três. Eu nunca quis ser candidato. Acho que o PSDB passa por momentos muito difíceis em Franca. As suas duas maiores lideranças não se unem, não trabalham para o partido. Isto permite que as oposições tenham uma mercadoria muito boa para vender na cabeça do povo: “ora, se eles entre si, não se dão, por que nós temos que acreditar neles?”. É o contrário do início da pregação cristã, quando Jesus veio ao mundo. Os adversários dizia assim: “vede como se amam”. Essa briga dos dois principais líderes do PSDB foi uma desagradável surpresa para minha história política. Esta situação do PSDB já derrotou o Alckmin e o José Serra em eleições para presidente. Essa, vou dizer entre aspas, pois não estou conseguindo achar uma palavra melhor agora, ciumeira de quem é mais importante prejudica o partido. Importante, são os resultados.
Comércio - A divisão pode atrapalhar a eleição do partido?
Ananias - A intenção de ganhar a eleição existe dentro do PSDB, mas é inacreditável em política que a desunião, quando as lideranças tornam público as suas rivalidades, construa para o partido. É importante construir em grupo. Não pode ser igual ao PT, que opera em Brasília como quadrilha. Ali é diferente. O mensalão está começando a ser julgado. O PSDB não tem esta história, o PSDB é um partido que foi construído com ideologia, mas o sentimento de que eu sou o maior, está prejudicando o partido.
Comércio - A disputa das prévias desgastou a relação do senhor com Alexandre Ferreira?
Ananias - Eu diria que não. Se da parte do Alexandre ficou esse saldo negativo, eu dei demonstração clara de que nenhum de nós três era meu candidato para as próximas eleições. O meu candidato era o Roberto Engler. É a maior liderança partidária regional e histórica do PSDB em Franca. Porque, se você pegar o histórico político de onde esteve cada uma das figuras do PSDB, você vai constatar que o Roberto Engler, desde que saiu do PMDB, está no PSDB. Tem gente que já passou pelo PDS [Sidnei] ou criou partidos alternativos e aí essas lideranças digladiam entre si. Então, eu não tenho nenhuma restrição ao Alexandre, como não tenho com a Valéria [Marson]. O que aconteceu na prévia, foi uma demonstração muito clara de preferência por um dos candidatos da direção do PSDB, da executiva do PSDB. Eu não vou nem nominar, mas da executiva do PSDB houve uma preferência e não era eu. Não houve, em momento algum, rompimento entre mim e o Alexandre. O que não houve foi a aproximação dele comigo, é diferente. Ele tem mandado mensageiros falar comigo, mas eu não sou homem de recado, eu não dou e não gosto de receber recado. É uma decisão dele que eu respeito e indica exatamente que, se ele for eleito, o Ananias está fora do governo. E também eu não estou na posição alimentando ou acreditando que eleito A, B ou C eu estarei aqui. Primeiro, que eu não tenho necessidade de estar aqui por questões financeiras. Segundo, que isso é um ônus. E terceiro, que tenho prazer de trabalhar para o povo e, por isso, eu disse que prefeito nunca será meu chefe.
Comércio - O senhor disse que nenhum dos três candidatos era o seu candidato. Alexandre continua não sendo o seu candidato?
Ananias - Eu falei que, naquela oportunidade, nenhum dos três era meu candidato. O meu candidato era o Engler. Agora, eu já relatei para você que fui procurado por vários candidatos a prefeito, valorizando o meu trabalho e não a minha filiação política. Valorizando o trabalho dessa equipe, da Secretaria de Finanças, dando garantia que esse trabalho vai continuar, principalmente, a doutora Graciela. Ela foi incisiva comigo ao afirmar que o trabalho vai ser promovido e melhorado, inclusive, na questão que ela pretende fazer de aplicar todo o Fundeb na solução da questão de remuneração do pessoal da Educação, num tratamento diferente das instituições de Saúde para melhorar o atendimento. A dor que dói em você não dói em mim, a não ser por solidariedade. Eu vivi isso lá numa UTI de hospital em coma, eu sei o que temos que mudar para melhorar o relacionamento entre Prefeitura e a área da Saúde. Isso eu vi de maneira muito forte na conversa com a Graciela. Os outros dois candidatos que conversaram comigo, o Ubiali e o Gílson, não entraram em detalhes.
Comércio - Qual candidato vai receber o voto do Ananias?
Sebastião Ananias - A Constituição me garante o sigilo do voto, então esse eu vou preservar. Se eu for dar um posicionamento e falar publicamente uma tendência de apoio, eu preciso ter a decência de levar minha carta de exoneração para o prefeito e sair do governo. E eu pretendo prestar esse serviço ao prefeito de fechar as contas públicas com a segurança que eu tenho competência para fazer. Eu jamais vou ser desonesto com o Sidnei, jamais. É um companheiro que eu respeito, admiro e estou com ele pela terceira vez. Eu só não recebo ordem para votar em A, B ou C.
Comércio - Em março, o senhor passou por um momento bastante difícil, na UTI. O que representaram aqueles dias de internação?
Ananias - Significou que Deus me deu uma segunda chance de ser útil à comunidade. Que as orações daqueles que queriam que eu voltasse, foram ouvidas por Deus e que o meu carnê de prestações para passar para o lado de lá ainda tem parcelas para serem pagas. Quero continuar sendo útil à cidade de Franca que me acolheu menino, aos 13 anos, e me fez um filho adotivo ao me dar um título de Cidadão Francano. Eu quero ter o prazer de quando eu olhar no espelho, o que eu faço todos os dias, ter a oportunidade de enxergar uma pessoa do bem.
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