Conhecermo-nos


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À pergunta 919 de O Livro dos Espíritos, Santo Agostinho, um dos luminares espirituais a quem coube contribuir para a Codificação do Espiritismo a respeito de qual o meio mais eficaz para resistir-se à tentação do mal, respondeu com propriedade: ‘Um sábio da antiguidade disse: ‘conhece-te a ti mesmo.’ Com efeito, o mentor espiritual, do alto da sua sabedoria, dá-nos – a encarnados e desencarnados –, um roteiro seguro para combatermos a atração maligna.

O grande desafio, portanto, está em enfrentarmo-nos portas adentro, apesar de desejarmos ardentemente que as nossas imperfeições fiquem fora das nossas cogitações. Vê-se que contrariar nossos desejos é quanto custa lutarmos contra os defeitos que se enraizaram na nossa personalidade espiritual: o orgulho, o egoísmo, a vaidade... É uma luta terrível e extremamente desconfortável que há de ser enfrentada, mas, os nossos defeitos falam mais alto aos sentidos, acudindo-nos em desculpismo esfarrapado.

A individualidade espiritual que somos é o resultado das inúmeras experiências vivenciadas ao longo da nossa jornada evolutiva. Dessa maneira, nos refolhos da alma repousam nossas aquisições positivas e/ou negativas. Por isso, quando buscarmos de verdade autoconhecer-nos, nos surpreenderemos com os monstros que se escondem em nós mesmos e que, todavia, nem sempre conseguem ocultar-se como desejaríamos. Daí, afirmar-se: o homem vai à Lua, descortina realidades astronomicamente distantes, mas não consegue vencer a distância que separa ele de si mesmo. Prevenimo-nos, muitas vezes inconscientemente, contra a certeza de desapontarmo-nos, porque intuídos de que a viagem ao nosso interior é realmente difícil e tumultuosa, cheia de desagradáveis surpresas e verdades incômodas.

Bem a propósito, o filósofo Luiz Felipe Pondé, no caderno ‘Ilustrada’, da Folha de S. Paulo, de 4 de junho de 2012, no artigo Meu inferno mais íntimo, mostra o quão doloroso é enfrentarmos a nós mesmos. Ilustra suas considerações com interessante apólogo sobre a indagação de um aprendiz dirigida ao seu mestre: ‘Mestre, o senhor não teme que Deus, quando o senhor morrer, possa inquiri-lo sobre o porque de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias?’ Ao que o mestre teria respondido: ‘Deus está preocupado é com que sejamos nós mesmos.’

A moral da história faz saltar-nos ao entendimento a transcendental importância do autoconhecimento. Em O Livro dos Espíritos, na continuação da resposta acima mencionada, Santo Agostinho orienta para que façamos, a cada final de dia, um relatório do quanto nos autoconhecemos no período, procurando identificar onde erramos e onde acertamos. Se ajudamos ou prejudicamos. Se fizemos o mal, é necessário que o reparemos, e, acima de tudo, é-nos obrigação inarredável combatermos em nós mesmos a tendência ao erro. Assim agindo, estaremos construindo o ‘céu’ que almejamos, já que, conforme asseverou Jesus, o Reino de Deus está dentro de nós.

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