Na visão do menino, a casa era muito grande, porém lembro-me bem de que eu e os outros quatro irmãos nos acotovelávamos à mesa e a renhida disputa por espaço, muitas vezes, cansava-me, eu pegava do prato esmaltado, aconchegava-me a um canto, o pai ria e comentava alto:
– Esse menino é engraçado, gosta de sentar no chão.
Os irmãos gargalhavam, esparramando os antebraços sobre o madeiro, comemorando os despojos daquela guerra silenciosa. A mãe não dizia palavra.
Um dia o pai deu aviso:
– O compadre tá vindo de Goiás com a família, vai passar um tempo aqui em casa. A mãe abriu um pouco mais os olhos, deixou pender por alguns segundos o maxilar inferior e, recolhida em seu silêncio, pôs-se a arrumar a casa: empurrou camas, arrastou armário, improvisou cadeiras, desentocou panos antigos, remendou-os, consultou a despensa, coçou as cinzas dos cabelos, pediu que recolhêssemos ovos, apanhássemos tomates, folhas de couve, tudo pronto.
Logo as visitas chegaram, acobertaram com lona, no fundo do quintal, os poucos trastes que possuíam. Ao todo eram cinco pessoas. Ficaram durante alguns minutos de pé, cumprimentaram-nos e, em meio àquele turbilhão, fiquei confuso, percorri toda a matemática que dona Rosinha havia me ensinado, subtraí muitas coisas da despensa, somei os corpos que se deitariam nas camas, fracionei minutos de banhos, multipliquei pernas, braços, as contas nunca davam certo.
Durante aqueles quatro meses, ouvi cantigas de roda, risos, gargalhadas, choros e gritos. De quando em quando, os mais velhos pegavam-se em tapas e beliscões, reclamavam comida, água, roupas, remédios, tudo.
Às vezes, eu acordava de madrugada e, por alguns minutos, ouvia, contente, o som do silêncio. Nessa época mamãe foi chamada à escola, fiquei de recuperação, dona Rosinha expôs a minha preguiça, o meu desleixo, enfim, o meu descaso com os estudos, mamãe corou, a professora deu a notícia, perdi a bolsa de estudos. Mamãe não disse palavra.
No caminho de volta não houve diálogo entre mim e mamãe, preparei-me para a surra, seria grande, proporcional às palavras de dona Rosa. No entanto mamãe cumpriu rotina, preparou café, alimentou todos, sanou reclamações, por fim, pegou meus livros e cadernos e os colocou sobre a mesa, organizou varas de pesca, peneira, convidou todas as crianças, deu-me ordem:
– Você fica.
Hoje, relembro a voz e a gargalhada rouca de meu pai, a inconsequência em algumas ações e o exemplo de solidariedade, que guardo nos escaninhos de minha memória. Vez ou outra ali vasculho pertences que distribuo com sorriso tímido.
Hoje, recordo o silêncio angustiante de minha mãe, por isso, curvo-me sobre a folha em branco e pesco, em mim, palavras que alimentem toda a fome de minha alma.
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