Sim, eu me lembro.
Lembro-me de todas as vidas de outrora.
Fui soldado, braços rijos e injustos,
matei crianças, bombardeei inocentes,
incendiei cidades distantes.
Em outra, fui rico, fui belo,
tive mulheres e destruí meu espírito
em horas perdidas
em delírios fulgurantes.
Houve uma em que fui sacerdote,
torturei corpos de pecadores,
enquanto pecava à noite,
olhando a face direita de Cristo.
Dor, morte, ilusões, e matéria,
num ciclo infinito de traições
à pureza que, creio, já esteve comigo.
Hoje, pai, hoje...
Hoje que a lua me olha por sobre as nuvens,
e o silêncio banha minhas lágrimas
e meu corpo extenuado,
hoje quero banhar-me
rosto limpo
vestir minha única camisa branca...
e servir a este mundo
tão repleto de mágoas,
tão ausente de amor.
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