Gustavo Lopes abre a exposição 'Almost Quiet&Silent Places'


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Paisagem de São João Batista do Glória - MG
Paisagem de São João Batista do Glória - MG

O barulho infernal - auditivo e visual -, certa perplexidade diante da constatação de que numa cultura globalmente estridente as saídas numa direção oposta parecem exíguas dão a tônica da ideia do homem-ruído, expressão que Gustavo Lopes utiliza para “designar por um viés, o homem que se antecipa pelo ruído, pelo barulho, que ocupa espaços de maneira desordenada e confusa. Por outro, o homem arruinado, caído, com valores de existência prejudicados e mal engendrados”.

Partindo dessa inquietação, o fotógrafo e docente dos cursos de Design de Moda e Comunicação Social da Universidade de Franca inaugura hoje, no Laboratório das Artes (rua Cuba, 1099, Jardim Consolação), a partir das 20h, a exposição Almost Quiet&Silent Places (lugares quase quietos e silenciosos), composta por vinte reproduções de fotografias em planos abertos, imagens de limites imprecisos, às vezes difusos, todas feitas ao longo dos últimos cinco anos no Sul de Minas Gerais e litoral do Rio de Janeiro e São Paulo. A ênfase subliminar no advérbio “almost/quase” dando noção de cenas e atmosferas que vão se rarefazendo, no inelutável do barulho que avança na proporção da ‘civilização’. “Não consigo mais olhar para esses lugares e me sentir completamente contemplativo, sem interferência. Me apavora o barulho, o ruído que vai chegando e perturbando essa história toda, daí a brincadeira com o título Almost Quiet&Silent Places”, lugares quase quietos e silenciosos. Há sempre a iminência de um barulho, de uma confusão”, explica Gustavo, acrescentando ser o título da exposição uma brincadeira inspirada pela mostra Places, quiet and strange que o cineasta e fotógrafo alemão Wim Wenders apresentou no ano passado em São Paulo: uma série de fotografias de lugares muito calmos, cálidos, a lente se fechando no foco do abandono inscrito em cada cena.

A observação dessas imagens foi o gatilho para Gustavo Lopes concatenar que possuía imagens em seu arquivo pessoal tangenciando temas semelhantes, numa discussão que também o assolava, com a diferença de que “não se tratava de lugares estranhos, mas de locais em momentos extremamente calmos, quietos”.

MATURIDADE
O artista comenta não acreditar na ideia de que tal busca pelo silêncio em imagens seja uma fase, uma vez que esse seu traço, ainda que então menos eloquente, já se fazia perceptível na exposição das fotos da fauna e flora da Serra da Canastra, em 2000. “É mais um amadurecimento. Minha relação com a música está cada vez mais próxima disso, tenho ouvido cada vez mais o jazz. A depuração me interessa, assim como as coisas mais recuadas, lisas. Minhas fotos são cada vez mais silenciosas. Anteveem, de certa forma, a potência extraordinária do ruído que a sucederá”.

Mais minimalista, encaminhando-se, quem sabe?, para um possível monocromatismo, Gustavo Lopes navega pelos tons de azul entre água e ar; revela o ponto perdido numa imensidão líquida: uma fragata, um pescador na solidão do seu barco, um menino numa praia, a clara complicação da natureza verde e terrosa.

O que a imagem precisa ter para dizer o que precisa dizer é uma questão do Suprematismo que aparece por nuances estéticas nesse trabalho de Gustavo Lopes. O Suprematismo foi um movimento artístico russo do século passado centrado nas formas geométricas básicas reduzidas a um espaço pictórico ilimitado em que a moldura não circunscreve o espaço da imagem. Êmulo do abstracionismo.

Assimila as teorias, mas aposta mais firmemente na assinatura final que resulta de tais aquisições. “Toda imagem que eu faço é certamente uma imagem idealizada, um recorte. O peso nelas é o da terra, da água, do ar. A qualidade do meu trabalho e do trabalho de quem quer que seja, está na pessoalidade. Nem toda imagem precisa ser exatamente espeleológica, com camadas de informações se sobrepondo”.

Ainda que o trabalho de Gustavo Lopes, como o de todos os que atravessaram a saída do filme fotográfico aos pixels, tenha passado pelo purismo do frame como limite, a representação do mundo pela grafia da luz num espaço limitado, como estudioso das teorias que envolvem arte e fotografia, questiona, na contemporaneidade, conceitos como sincretismo e intertextualidade (como discutir isso hoje?) e engrena um namoro com a Semiótica. Caminha com desenvoltura e algum espanto por um novo mundo, a partir da revolução tecnológica que impulsiona a quebra de paradigmas a todo momento, lembrando que aquilo que o lendário fotógrafo Klaus Mitteldorf fazia na década de 90 com as cores, saturando-as, trabalhando manualmente com polarização, o Photoshop hoje realiza com um toque de tecla. “Com a digitalização, a imagem deixa de existir em relação ao seu referente e se torna uma matriz numérica, com amplas possibilidades de manipulação. O homem desenvolveu tecnologias tão extraordinárias nos últimos cinquenta anos as quais ele próprio não consegue mais processar”.

Gustavo conta que o seu próximo projeto é uma série de retratos. “O retrato mexe com a alma do sujeito retratado. A ligação com o referente é absolutamente lúcida, você trabalha com a possibilidade da resposta visual do sujeito”. Outro projeto é fotografar a neve, captar as gradações do branco na Finlândia, chegar aos confins da Lapônia. Jogar com os horizontes e a exatidão das coisas. “Gosto da ideia de fundir os limites, fazendo com que se esfumem, se percam”.

Numa conversa que percorre nomes famosos como Annie Leibovitz, Helmut Newton, Mapplethorpe, Richard Avedon, entre outros, metalinguagem fotográfica, a rediscussão do real, a fotografia cinematográfica de Wim Wenders e Walter Moreira Salles na mirada do road movie cujo apelo filosófico e visual norteia atualmente o seu trabalho, tudo isso cruzado com as imagens deslumbrantes que a exposição Almost quiet&Silent places apresenta leva inevitavelmente à ideia de que tal depuração resulta de maturação, boas escolhas, profundo conhecimento de história e evolução fotográfica, traço autoral.

No anteparo, o silêncio como o grande matiz na paleta de luzes, sombras e cores.

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