A fartura de Deus


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Existe um ditado: “o pouco com Deus é muito”. Essa é a grande verdade que veremos na Palavra de Deus hoje

PRIMEIRA LEITURA
Em Israel o povo tinha o costume de comer somente uma vez por dia, ao entardecer, depois do pôr-do-sol, quando os homens voltavam do trabalho no campo. Qual era o sonho dos “pobres da terra” de Israel? Não era mirabolante: somente ter comida em abundância e poder comer como os ricos... três vezes por dia!

É nesse contexto social que se enquadram as leituras deste dia (IIº Livro dos Reis, 4). A primeira descreve o gesto generoso de um homem de Baalsalisa que, durante uma carestia provocada pelas escassez de chuvas, oferece a Eliseu 20 pães de cevada.
O profeta não guarda para si o precioso alimento, mas convida o homem a distribuí-lo para as 100 pessoas que se encontram perto dele, dizendo: “todos comerão e ainda sobrará”. Esta “multiplicação dos pães” é uma das inúmeras narrativas de milagres operados por Eliseu (a nenhum profeta são atribuídos tantos).

Em nome de Javé ele multiplica os vasos de óleo de uma viúva, comunica o poder de gerar a uma mulher estéril, cura um leproso, e, até mesmo, ressuscita um morto. O autor sagrado narra todos esses episódios para que os israelitas compreendam que a vida do homem depende de Javé, não de Baal, o deus dos cananeus.

A leitura nos ensina que Deus não multiplica os pães do nada. Antes encontramos o gesto generoso de um homem de Baalsalisa que oferece o fruto do seu trabalho e ainda a decisão de Eliseu de partilhar o dom recebido com todos os que se encontram necessitados.

Não será este também para nossos dias o caminho a ser seguido para revolver os problemas da fome no mundo?

SEGUNDA LEITURA
A segunda leitura (Efésios, 4) é uma exortação à unidade. Não são simples conselhos, mas exigências éticas que têm suas raízes no ser de Deus para os homens. Por isso, Paulo, na prisão, suplica aos efésios que vivam de acordo com a vocação a que foram chamados e se esforcem para manter a unidade, já que receberam um mesmo batismo. O reconhecimento da paternidade de Deus nos leva a admitir que os “demais” são nossos irmãos!

A unidade é a essência da Igreja: um corpo, um espírito, um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus e Pai de todos. E, para manter essa unidade, é preciso humildade, paciência e suportar-se mutuamente na caridade.

A humildade e a modéstia desempenham papel muito importante onde a unidade é ameaçada. A mansidão, o espírito pacífico e a docilidade são comportamentos que distanciam toda espécie de rixa, evitam a agressividade e o sentimento de superioridade.

A paciência é um sinal essencial do amor e torna possível a unidade e a paz. É o Espírito que cria e conserva a unidade.

EVANGELHO
A multiplicação dos pães, quarto sinal do Evangelho de João (João, 6), é o centro dos sete sinais que simbolizam a ação de Jesus. Jesus se encontra na Galileia, marcada pela escravidão, região dos trabalhadores pobres, mantida por latifundiários que moram na corte de Herodes. A Páscoa dos judeus está próxima, bem como o sonho de liberdade e pão. O povo decide não ir a Jerusalém, mas seguir Jesus. Gesto novo e revolucionário. Liberta-se, assim, do poder explorador concentrado no Templo de Jerusalém.

Jesus se torna verdadeiro libertador que conduz à Páscoa autêntica. É o novo Moisés que sobe ao monte e é rodeado por muita gente que deseja escutá-lo.

O povo vinha de longe, atraído pela fama e pelo fascínio dos sinais. Jesus aproveita esses momentos para ensinar a partilha, característica fundamental de seu projeto.

Começa interpelando os discípulos sobre como solucionar o problema da fome. Logicamente, no sistema do império e na política do Templo, nunca haverá comida e pão para todos. Os discípulos atestam isso.

Jesus não dá esmola, mas ensina as pessoas a repartir o que têm, mesmo que sejam cinco pães e dois peixes. Há uma grande diferença entre dar esmola e o ato de repartir. A solidariedade e o partilhar geram irmandade, trazem alegria. A esmola e o paternalismo podem produzir desigualdade, descontentamento, divisão e humilhação.

Jesus revela, faz sensível e encarna a bondade e a generosidade de Deus. O povo come o quanto precisa e ainda sobram doze cestos. Doze é número simbólico que, às vezes, se refere a organização do povo. Mas o que se torna claro é que não se deve desperdiçar o dom de Deus.

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br 

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