Fábrica de sapatos monta ‘filial’ no CDP/Franca; 55 presos trabalham


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Presos trabalham no pesponto de calçados em unidade da Mariner montada no CDP de Franca
Presos trabalham no pesponto de calçados em unidade da Mariner montada no CDP de Franca

O cheiro de cola e couro e o barulho das máquinas perfurando o metal remetem ao trabalho em uma fábrica. Mas o acesso é restrito e, para chegar até o local das máquinas, há um forte esquema de segurança. É preciso atravessar várias grades fechadas com portas de trancas duplas e cadeados. Isso porque as filiais de fábricas francanas de sapatos e de componentes para calçados estão instaladas dentro do CDP (Centro de Detenção Provisória) de Franca, no bairro City Petrópolis. Lá trabalham 55 presos. Até quarta-feira, a unidade estava com quase mil detentos.

Uma parceria entre a unidade prisional, o Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), empresas locais e o Senai permitiu o aproveitamento da mão-de-obra dos presos.

A Mariner montou unidade de pesponto num dos pavilhões do CDP desde maio de 2011. A empresa de Calçados Democrata emprestou máquinas de pesponto para a capacitação dos presos. A qualificação dos detentos ficou por conta do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

A Mariner produz em Franca 5 mil pares de calçados por dia e emprega 600 funcionários. No CDP, a banca de pesponto tem 40 funcionários que recebem um salário mínimo (R$ 622) por mês, independentemente da produção. Pela lei, os presos ainda têm a pena reduzida: cada três dias trabalhados significam um dia a menos de prisão.

A unidade iniciou os trabalhos com pesponto de 24 pares diários e hoje atingiu 300 pares. A expectativa é expandir ainda mais. “Aderimos ao projeto por uma preocupação da Mariner com a parte social. É uma oportunidade de dar aos presos trabalho, uma ocupação lá dentro e a possibilidade de reintegração na sociedade”, disse o sócio-proprietário da empresa, Paulo Nunes Coelho.

Já a indústria de componentes para calçados montou a minifilial no CDP há menos tempo. Os presos trabalham na fabricação de peças de metal, como fivelas para sapatos e cintos, há três meses. Quinze detentos produzem dez mil peças por dia. A empresa paga salário de cerca R$ 300.

“O preso recebe o dinheiro e pode depositar numa conta controlada pelo CDP. A família pode sacar, se o preso autorizar, ou ele pode usar para comprar produtos autorizados pela Secretaria de Administração Penitenciária, como doces, salgados e bolachas”, disse Valter Moreto, diretor do CDP de Franca.

O pespontador R.S., 27, que já teve banca de pesponto e trabalhou nessa área durante 15 anos é um dos 40 presos que trabalham para a Mariner no CDP. Destina o dinheiro que recebe para a filha de sete anos. “É bom ter o trabalho aqui por causa da remissão (da pena) e para poder dar continuidade ao que você fazia quando estava na rua.” Ele está preso por ser acusado de participar de um assalto.

M.P., 31, trabalha desde maio com as peças de metal. É lixador. “Estar trabalhando é bom para não ficar pensando coisa errada e ainda ajudar a família. Mando o dinheiro (R$ 250 por mês) para minha mãe”, disse ele, que é acusado de tráfico de drogas e já esteve preso por 12 anos por roubo.

Os presos cumprem jornada de segunda à sexta-feira, das 7 às 16 horas. Funcionários das duas empresas acompanham a produção dentro do presídio. Na seleção dos que irão trabalhar há preferência pelos que cometeram crimes mais leves, que tenham comportamento mais tranquilo e aptidão para os serviços.

Novas parcerias entre o CDP e empresas da cidade estão em andamento. “É uma forma de mostrar que o preso tem potencial e capacidade de desenvolver um projeto de trabalho, é uma forma de profissionalizar essa pessoa para que possa sair daqui com pelo menos a oportunidade de estar qualificada e tentar uma nova chance de emprego lá fora”, disse o diretor Moreto.

Mais 250 detentos trabalham no CDP em outra áreas, como cozinha e limpeza. 

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