Futebol femino não é tão favorito, mas pode surpreender, diz Nenê


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 Nenê, que joga futebol desde os seis anos, já conquistou diversos títulos pela seleção sub 22
Nenê, que joga futebol desde os seis anos, já conquistou diversos títulos pela seleção sub 22

A busca das meninas pela inédita medalha de ouro no futebol nos Jogos Olímpicos de Londres tem um espectadora bem atenta em Franca: Adriane dos Santos, 24, a Nenê, camisa 10 da Francana. Ela esteve na primeira e na segunda lista de jogadoras convocadas para a seleção olímpica, treinou normalmente com todo o time, mas, infelizmente, foi cortada na última convocação, quando ficaram apenas as 18 jogadoras que viajaram para Londres.

Como suas amigas que jogam bola com os pés, Nenê nunca teve vida fácil no Brasil, que é considerado por muitos o país do futebol, mas dedica praticamente toda sua atenção e investimento ao futebol masculino, apesar de as mulheres terem conquistado a medalha de prata nas duas últimas Olimpíadas.

De família simples, como boa parte dos jogadores e jogadoras brasileiros, Nenê nasceu em Ji-Paraná, Rondônia. Aos seis anos se mudou com a família para Planaltina, em Goiás, cidade onde começou a mostrar seu talento.

Aos nove anos, entrou para o time Feras da Bola, onde ficou até 14 anos. Em pouco tempo, a menina ainda mirrada começou a ficar conhecida como Nenê, um apelido caseiro que se alastrou devido aos gritos que seu falecido pai, Armênio Carlos, o maior incentivador de sua carreira, não cansava de bradar junto aos alambrados dos campos de terra em que a filha jogava.

“Naquela época, não havia meninas jogando em Planaltina. Eu jogava com as mais velhas. Meu pai ficava gritando ‘vai Nenê’, ‘vai Nenê’... E como eu era pequenininha, o apelido pegou...”

Aos 17 anos, Nenê foi convidada para fazer um teste no São Caetano, time da Grande São Paulo. Foi aprovada e aí começou uma longa peregrinação que a levaria para várias cidades e Estados, inclusive para o exterior.

Em 2006, Nenê foi convocada para a seleção brasileira sub-20. Com o time brasileiro, foi campeã sul-americana e terceira colocada no Mundial, ganhando do poderoso time norte-americano.

Em 2007, veio para Franca pela primeira vez para reforçar o time que disputaria o Campeonato Paulista daquele ano, já que a “Feiticeira”, como é conhecida a equipe feminina de Franca, havia subido para a primeira divisão.

Ainda em 2007, além de vice-campeã regional pela Francana, sagrou-se campeã da Liga Nacional pelo Santos, time para o qual foi emprestada.

Em 2008, com 20 anos incompletos, conquistou o Campeonato Regional pela Francana e foi convocada novamente para disputar o Campeonato Sul-americano com a seleção brasileira sub-20 e sagrou-se bicampeã.

Em 2009, Nenê teve sua primeira experiência internacional. Durante sete meses, defendeu as cores do F.C. Gold Pride, de Santa Clara, nos EUA, juntamente com Érika e Formiga, duas outras importantes jogadoras brasileiras. De volta ao Brasil, em 2010, Nenê assinou contrato com o Foz Cataratas, um dos mais fortes times da atualidade. Atualmente, está em Franca, por empréstimo, para disputar mais uma vez o Paulista pela “Feiticeira”.

Acredito que ainda exista bastante, mas acho que isso também está mudando, porque a sociedade está mudando e o homossexualismo não é algo ligado apenas ao futebol feminino, mas está ligado a toda e qualquer profissão. Há homossexuais no futebol feminino como existe no masculino, na medicina, no direito, no jornalismo etc.

Comércio da Franca - Você esteve na lista das 35 jogadoras convocadas para os Jogos de Londres. Porém, no último corte, saiu fora. Como recebeu essa notícia?
Adriane dos Santos, a Nenê -
Claro que fiquei muito triste. Defender a seleção é o sonho de qualquer jogadora. Mas não tinha jeito, algumas de nós precisavam ser cortadas e eu sei que não é fácil para uma atacante como eu ganhar espaço no time atual, que tem excelentes jogadoras nessas posições. Agora me resta torcer bastante para que as meninas tragam a tão esperada medalha de ouro para o Brasil e continuar me preparando para as próximas convocações.

Comércio - Você acha que o Brasil tem chances nessa Olimpíada?
Nenê -
Acho que não é tão favorita como já foi, porque hoje existe muito equilíbrio no futebol feminino mundial. Japão e EUA estão muito fortes. A Coréia e a Suécia talvez corram por fora. Mas eu acredito que o Brasil também pode surpreender.

Comércio - Como o técnico Jorge Barcelos justificou seu corte?
Nenê -
Ele me disse que eu era uma excelente jogadora, que tinha ainda um futuro pela frente, mas que nesse momento havia outras jogadoras mais adequadas do que eu para compor o time.

Comércio - Como assim mais adequadas?
Nenê -
É que às vezes você está bem nas finalizações, por exemplo, mas está um pouco ruim nos passes. Ou você está muito veloz, com excelente preparo físico, mas está falhando no domínio da bola. Em função disso, o técnico precisa decidir em função do todo, ou seja, o que está faltando para o time: uma atleta com mais velocidade ou com mais domínio de bola? Uma atleta que finalize melhor ou outra que passe melhor? Pelo que eu entendo, os cortes acontecem em função disso, porque várias garotas que foram cortadas também estão em excelente nível técnico.

Comércio - Como o futebol entrou em sua vida?
Nenê -
Não sei muito bem. Eu me lembro de brincar com bola desde os seis anos de idade. Aos nove já jogava em um time e daí não parei mais. Mas não sei dizer o que me levou ao futebol. Acho que nasci com esse dom e essa vontade.

Comércio - E seus pais nunca foram contra ou, pelo menos, nunca tentaram fazer você mudar de idéia?
Nenê -
Nunca! Muito ao contrário, sempre me incentivaram, principalmente o meu pai, que me acompanhava em todos os jogos. Ao longo de minha carreira, inclusive, meu pai foi guardando todas as medalhas e troféus que eu ganhava, junto com recortes de jornal, fotografias e até passagens de avião que eu utilizava para me deslocar. Ainda hoje tem um cantinho na casa de minha mãe que está cheio dessas coisas.

Comércio - E como é ser uma jogadora de futebol no Brasil, um país ainda muito machista e historicamente pouco acostumado ao futebol feminino?
Nenê -
Não é nada fácil, apesar de já ter melhorado bastante. É que a mídia ainda não dá muito espaço para o futebol feminino e assim fica difícil atrair patrocinadores. Na época de campeonatos, como o Mundial ou as Olimpíadas, aí a gente tem a estrutura da CBF e uma visibilidade bem maior na mídia. Mas quando voltamos para os campeonatos de clubes, aí desaparecem o apoio da CBF e também os espaços mais expressivos na mídia. É triste, mas o futebol feminino só aparece para valer em época de Olimpíada e de Campeonato Mundial.

Comércio - E por que você acha que isso acontece?
Nenê -
Não sei, sinceramente. O futebol feminino já provou que pode chegar lá. Somos vice-campeãs olímpicas e já fomos vice também no Mundial. Somos reconhecidamente uma das maiores forças do futebol feminino mundial. Não sei o que mais querem da gente.

Comércio - E em relação aos salários, é possível ficar rica com o futebol feminino, como acontece no masculino?
Nenê -
Rica ainda não. Não dá para ganhar como esses meninos do masculino, que recebem um salário e já conseguem comprar uma casa. No feminino, a gente tem que pensar no longo prazo. Para conseguir alguma coisa a gente precisa ir guardando durante a carreira. Mas, de qualquer forma, já está melhor do que era antigamente, quando muitas meninas praticamente pagavam para jogar. Os times não pagavam salário e nem conseguiam bancar alimentação e estadia, uma realidade que ainda persiste em alguns Estados mais pobres.

Comércio - E dá para viver desse dinheiro guardado depois de “aposentar as chuteiras”?
Nenê -
Para algumas dessas atletas olímpicas, sobretudo para aquelas que ficaram muito tempo fora do Brasil, acho que é possível viver do dinheiro acumulado durante os anos de futebol. Mas, para a grande maioria das jogadoras, isso ainda é impossível.

Comércio - A jogadora Marta foi importante para alavancar o futebol feminino no Brasil, não é?
Nenê -
Sem dúvida, a Marta foi é continua sendo muito importante, porque, mesmo jogando fora do Brasil, ela continua lutando para melhorar as condições do futebol feminino no Brasil. Sempre que tem espaço na mídia ela fala desse problema e cobra as autoridades esportivas. E também, por ser a melhor do mundo cinco vezes consecutivas, ela serve de inspiração para várias meninas que hoje estão começando no futebol e que sonham um dia chegar até onde ela chegou, ou até mesmo em ainda jogar com ela.

Comércio - E quem foram seus ídolos no futebol feminino?
Nenê -
Quando eu era criança, eu me espelhava muito na Sissi e na Formiga. E eu acabei jogando com a Formiga nos EUA e também me encontrando bastante com a Sissi, que era assistente técnica naquele país.

Comércio - O preconceito em relação às jogadoras, ele ainda é muito forte no Brasil?
Nenê -
Acho que também está melhorando, pois o futebol feminino está crescendo muito no Brasil. Quando eu era criança, muitas amigas de minha mãe falavam um monte de coisas para elas. Elas ficavam inconformadas que meu pai e minha mãe me deixassem jogar futebol. Hoje, porém, quando volto a Planaltina, elas são as primeiras a me parabenizarem pelo sucesso que alcancei até agora. Creio que em pouco tempo estaremos como os EUA. Lá, as meninas começam a jogar aos cinco anos de idade. Há apoio nas escolas e para os pais é um orgulho ter uma filha com talento para o futebol. Com mais meninas praticando o esporte, o preconceito tenderá a diminuir, com certeza.

Comércio - Permita-me uma provocação: em relação ao homossexualismo, ainda há muito preconceito no futebol feminino?
Nenê -
Acredito que ainda exista bastante, mas acho que isso também está mudando, porque a sociedade está mudando e o homossexualismo não é algo ligado apenas ao futebol feminino, mas está ligado a toda e qualquer profissão. Há homossexuais no futebol feminino como existe no masculino, na medicina, no direito, no jornalismo etc.

Comércio - Esse preconceito mais forte em relação ao homossexualismo no futebol feminino poderia estar relacionado aos tempos mais antigos, em que poucas mulheres se arriscavam nesse esporte dominado pelos homens?
Nenê -
Pode ser. Com mais meninas jogando futebol, é bem provável que as preferências sexuais também sejam bastante variadas. Mas o que eu acho mesmo é que as cabeças estão mudando e as pessoas não estão ligando muito para essas coisas. O importante é saber jogar bola e não ser homo ou heterossexual.

Comércio - Até que nível você estudou?
Nenê -
Eu terminei o ensino médio e tive que parar, pois estava muito difícil conciliar treinos, viagens, jogos e estudos. Mas pretendo fazer faculdade quando parar de jogar ou quando pelo menos diminuir o ritmo de jogos e treinos. Gostaria de fazer fisioterapia e me especializar na recuperação de atletas. Há algum tempo, tive um problema sério, que quase me levou a uma cirurgia. Foi uma luxação na patela. O médico me recomendou 15 dias intensos de fisioterapia. E foi maravilhoso, porque consegui me recuperar apenas com exercícios e evitei uma cirurgia que poderia prejudicar minha carreira.

Comércio - E o futuro?
Nenê -
Quero voltar para a seleção, mas por enquanto vou me concentrar em meus times. Acho que a gente não pode ficar pensando lá na frente, precisa viver o presente. Vai ser o trabalho bem feito aqui na Francana e depois no Foz Cataratas que me levará de volta à seleção.

Comércio da Franca - E jogar no exterior, você ainda tem interesse?
Nenê -
Pode ser. Tive uma conversar informal com empresários da Coréia, mas não chegamos a formalizar nada.  

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