Ele conseguiu viver de música durante a maior parte da sua vida. Instrumentista reconhecido nacionalmente, tocou em várias orquestras famosas do país e com vários nomes conhecidos da música brasileira dos anos 60, 70 e 80. Além disso, se aposentou como músico, o que poucas pessoas que viveram no interior do Brasil na segunda metade do século passado conseguiram.
Talvez seja por isso que Manoel Laércio Piovesan, ainda firme em seus 80 anos, seja um dos mais reconhecidos músicos de nossa cidade.
Nascido em São José do Rio Pardo, em 1932, passou a infância e parte de sua juventude em Caconde, onde seu pai, Manoel Piovesan, ganhava a vida com uma tinturaria. Incentivado pelo pai, violonista, amante da música e seu primeiro professor, aos sete anos de idade Laércio já estreava na banda da cidade, experimentando os primeiros acordes do trompete, instrumento que o acompanharia pelo resto da vida.
Em 1943, aos 11 anos de idade, ficou em primeiro lugar no programa de calouros a Hora do Pato, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, apresentado pelo famoso radialista e locutor esportivo Jorge Curi. Cinco anos depois, aos 16 anos, veio para Franca a convite do amigo Euclides Barbosa.
Seus pais vieram algum tempo depois e trouxeram para cá a tinturaria. Primeiramente, Laércio integrou a Banda Municipal de Franca, passando depois pela Orquestra Tamoio, do maestro Adalberto Lucas, o Tim, e ainda pelos conjuntos musicais dos irmãos Godinho e Raul de Barros.
Mas essa primeira experiência de Laércio em Franca não durou muito tempo. Em 1952, a convite do conhecido maestro Chiquinho, responsável pela Orquestra da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Laércio voltou para a cidade maravilhosa.
Como queria ser músico, não pensou duas vezes. Nessa caminhada, participou de várias orquestras no Rio e em outras cidades. Tocou com a orquestra do conhecido radialista e compositor Ari Barroso, com a qual fez uma turnê de um mês pelo Norte e Nordeste do país.
Quando voltou a Franca, oito anos depois, em 1959, firmou raízes e tornou-se francano de vez. Casou-se com Sonia Santos Piovesan, teve três filhos e nunca mais deixou a cidade.
Depois de sua volta, integrou primeiramente a orquestra comandada pelo maestro Emílio Sicchieroli, o único músico francano além de Laércio a receber o troféu da Ordem dos Músicos do Brasil. Depois, recebeu um convite de Mário Berbel e, juntamente com seu irmão, Miroel Piovesan, fundou a Orquestra Laércio de Franca, aproveitando os instrumentos e os equipamentos que sobraram do antigo grupo.
Em mais de 20 anos de atividade, a orquestra gravou um disco, fez um filme, acompanhou vários artistas famosos, foi responsável pelo Carnaval da AEC por 15 anos ininterruptos, embalou os namoros e os amores de pelo menos duas gerações de francanos e fez mais de 2.500 shows em cidades espalhadas por todo o país, entre festas, “brincadeiras dançantes”, bailes de formatura e de debutantes.
Comércio da Franca - Como era ser músico na época em que o senhor chegou a Franca, com 16 anos de idade?
Laércio Piovesan - Não era nada fácil. Naquela época, os programas musicais eram esporádicos. Os bailes e as festas se limitavam aos finais de semana, o que tornava praticamente impossível viver apenas de música. E isso não acontecia só em Franca, mas em qualquer outra cidade do interior. Por isso precisei arrumar um emprego para poder me sustentar. Trabalhei na antiga Sociedade Francana de Automóveis, onde hoje é a loja principal do Magazine Luiza, e em algumas outras lojas que já não me lembro. O mesmo se passava com os outros bons músicos que já existiam. Nenhum conseguia viver apenas de sua música e das apresentações que fazia. Além disso, os equipamentos naquela época eram muito precários. Praticamente, não havia nada além do microfone para o cantor e uma pequena caixa. Os instrumentos, a gente levava mesmo no peito.
Comércio - Além de seu pai, que foi o primeiro a incentivá-lo na música, quem foram os seus mestres?
Laércio - Meu pai foi o primeiro e acho que por ser pai foi o mais importante. Ele tocava muito bem violão. Mas quando vim para Franca, aprendi muito com os irmãos Godofredo, o Godinho e o Raul de Barros, grandes músicos francanos que os mais antigos com certeza irão se lembrar. Mas, além disso, a música instrumental era muito difundida naquela época, sobretudo pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. E eu também aprendi muito ouvindo as orquestras através dessa rádio.
Comércio - E foi justamente essa orquestra da Rádio Nacional que o levou daqui uma vez...
Laércio - Justamente. A Orquestra da Rádio Nacional era muito famosa e quando eles me convidaram foi muito gratificante. Como eu não tinha nada que me prendesse aqui, aceitei na hora. Tocar nessa orquestra era importante tanto para melhorar o currículo como para aprender. E essa orquestra me proporcionou uma série de outras oportunidades...
Comércio - Oportunidades como a de percorrer o Norte e Nordeste com a Orquestra do Ari Barroso?
Laércio - Exatamente. Foi uma experiência incrível. Aí você percebe que a cultura musical não é uma questão só de gosto, mas também de acesso. Quando estávamos começando a turnê, em um Brasil em que a informação e a comunicação ainda não eram tão fortes quanto são hoje em dia, a gente ficava se perguntando se o povo de lá iria gostar daquela música do “Sul”, pautada principalmente nos sambas do Ari Barroso. E você precisava ver. Estádios cheios, teatros lotados. As pessoas aplaudiam e a gente percebia que eles estavam gostando. Aí eu vi que é uma questão de levar a música até o povo. Hoje, que o alcance é mundial e não apenas nacional, parece que só se toca um tipo de música. Parece que não há espaço para outros ritmos e formatos. Nem falo do meu gênero, a orquestra, que foi para a “cucuia”, mas de outro tipo de música que não seja simplesmente o “tum-tum-tum”.
Comércio - E por que a orquestra acabou em sua opinião?
Laércio - Digamos que ela não acabou totalmente. Há muitas orquestras ainda em atividade. Em Jaboticabal tem orquestra. Em Taquaritinga, Tupã, Catanduva. Até mesmo a Orquestra Tabajara, uma das mais antigas do Brasil ainda está em atividade, e sob a batuta do mesmo maestro, Severino Araujo. Em Franca, infelizmente, a orquestra acabou. Creio que a cidade pendeu para o sertanejo. Mas mesmo essas orquestras que sobraram tocam bem menos hoje em dia.
Comércio - Mas o senhor acha que é uma questão financeira? Fica difícil pagar uma orquestra com muitos músicos hoje em dia?
Laércio - Esse também pode ser um motivo, mas não creio que seja o principal. A questão é que as coisas vão mudando mesmo, não tem jeito. Acho que é mais cultural. Se um jovem falar hoje que quer ouvir uma orquestra ele vai tomar uma vaia. O tipo de música mudou e ela cabe tranquilamente em bandas menores e nos DJs. Mas há também uns conjuntos maiores, esses que geralmente fazem as formaturas atuais, cheios de coreografias e efeitos especiais, com um visual bastante apurado, mas que em minha opinião exageram na potência do som. Eu me sinto muito por fora dessas músicas de atualmente. Não aguento ouvir, é muita potência para pouca musicalidade.
Comércio - Os músicos de antigamente eram melhores dos que os de hoje?
Laércio - De maneira alguma. Como em todas as épocas, há músicos bons, geniais e ruins. Isso sempre aconteceu e sempre acontecerá, porque a música é atemporal. O que acontece hoje em dia é que as coisas são diferentes. Os músicos atuais têm mais informação e são mais profissionais. Antes, a gente tinha menos acesso à informação. Era mais entusiasmo, que também existe nos músicos atuais, mas de uma forma não tão amadora como antigamente.
Comércio - E os bailes de antes, eram mais interessantes do que as festas de hoje?
Laércio - É complicado falar sobre essas coisas, pois fica parecendo saudosismo de velho. Era no mínimo diferente e, como eu estava no auge naquela época, talvez para mim aquela época fosse realmente mais interessante. Eram tempos em que se tocava um único ritmo durante toda uma seleção. Ao final de cada uma delas, havia um pequeno intervalo para as pessoas se sentarem. Eu adorava ouvir o burburinho das pessoas conversando nas mesas. As músicas também convidavam para a uma dança mais “tête-à-tête”, uma espécie de dança da conquista. Hoje, penso eu, até o tipo de sapato atrapalha a pessoa a dançar, pois só o couro consegue deslizar suavemente pelo salão. Acho que é por isso que as pessoas precisam pular ao invés de dançar e aí perdem um pouco daquele agarradinho gostoso.
Comércio - E o senhor sente muita falta de sua orquestra?
Laércio - Ah! Sinto bastante. Era o auge de meu tempo, não tem como não sentir saudades... Mas eu ainda continuei tocando bastante depois que terminamos a orquestra, em 1980. Diminuímos o número de integrantes e tocamos ainda por vários anos. Mas já era uma banda. De qualquer forma, volto a dizer que a questão cultural é muito importante. Você entra no You Tube e encontra grandes orquestras que ainda fazem sucesso em vários países. Elas continuam vivas. E por que continuam vivas? Porque têm espaço para aparecer na mídia. As pessoas têm mais facilidade para conhecer outro tipo de música e por isso um pequeno público acaba sempre se formando, para qualquer tipo de música.
Comércio - O senhor acredita que existe ainda um público para música de orquestra em Franca?
Laércio - É difícil afirmar isso, pois não temos apresentações de orquestras há muitos anos. Mas acredito que em uma cidade desse porte sempre existirão pessoas querendo coisas diferentes. Por exemplo, eu conheço pelo menos uns dez casais que vão sempre dançar em Taquaritinga, São José do Rio Preto ou em qualquer lugar que tenha uma orquestra tocando. Se isso fosse mais regular, talvez algum de seus filhos também começasse a gostar desse tipo de música.
Comércio - E em relação à Orquestra Sinfônica de Franca, o que o senhor tem a dizer?
Laércio - É uma luta árdua. Eu já participei de quatro tentativas de reorganizar a orquestra, mas infelizmente nenhuma deu certo. Em minha opinião, falta apoio e investimento não apenas dos poderes públicos, mas também de toda a comunidade. Se as pessoas e as empresas não apoiarem, dificilmente ela vai conseguir chegar a algum lugar.
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