Saio de casa e encontro lá no Terminal de ônibus, na Praça Barão, no calçadão da Rua Marechal Deodoro, ou no Shoping do Itaú o César Enfermeiro, indivíduo muito conhecido e estimado sobretudo por quem teve um dia algum osso quebrado, teve de se submeter a tratamento de fisioterapia. O homem me vê e assusta transeuntes distraídos com a habitual saudação em voz alta:
“Ao mestre com carim.
Eu toco acordeão,
Ele toca cavaquim”.
A caminho da escola, paro sistematicamente no Xérox do Marquinho e saúdo.
- Ô corintiano.
- É ruim, professor.
Então, viro para o homem forte, sentado no banquinho de madeira. Em silêncio ele me encara seriamente. É o Nicola, pessoa introspectiva, rica em necessidades especiais. Há mais de quinze anos nos conhecemos e nos comunicamos razoavelmente bem. Estendo-lhe a mão, ele a aperta com firmeza, e começa nosso diálogo.
- O senhor quem é?
- O Nicola.
-Ah, o senhor é que é o famoso delegado deste quarteirão?
- Mando prendê e arrebentá.
E ele solta gargalhada espontânea, comprida.
Às vezes, altero o assunto, para testar sua capacidade de retenção e sua rapidez mental.
- O senhor é o músico famoso deste quarteirão?
Ele nada diz. Apenas me encara, aguardando a continuação da conversa.
- O senhor toca piano?
- Não.
-Toca violão?
-Não.
-Toca sanfona?
-Não.
- Mas que diabo você toca então?
-As galinhas da horta.
E o Nicola cai na risada mais pura que ouço no dia.
ÀS onze horas chego ao restaurante Prato Cheio e, não importa se está vazio ou abarrotado de fregueses, a saudação que recebo da garçonete Fabiana é sempre a mesma.
- Cruuuuiz!
-Credo respondo, provocando olhares desconfiados de clientes não usuais.
Depois do almoço, costumo passar na padaria Pão Nosso, onde teço comentários mais ou menos assim:
- O Régis não é lá grande coisa como padeiro. Mas o danado tem um tino dos diabos. Ele sabe escolher as funcionárias. Só tem mulher bonita aqui nesta padaria.
A Rosa, quando está por perto, faz piadinha, e a Lucinéia, a chefe do Caixa, adverte:
- Olha, o Hugo já foi açougueiro, ainda possui faça de desossar bicho. Cuidado que meu marido é uma fera.
Um calafrio passeia pela minha espinha, olho desconfiado para os lados, saio de mansinho.
Na portaria do prédio, comunico seriamente ao porteiro que estou envidando esforços para conseguir uma folga para todos os funcionários.
-Vocês da portaria têm trabalhado bem, merecem um descanso. Tenho falado na orelha do síndico, estou quase convencendo o homem. Ele é durão, mas eu tenho falado todo dia. Acho que vamos conseguir uma folga pra vocês no dia sete de setembro. Se tudo der certo, vamos conseguir.
O homem me lança um olhar que descansa entre o agradecimento e a dúvida, e eu arremato antes que a porta do elevador se feche:
- Só eu mesmo pra me preocupar com vocês, hein?
- É mesmo. Obrigado, sô Luiz.
Em casa, geralmente me lembro de algum problema, ligo para o Marquinho Marco Antônio Soares.
- Professor, esqueci de comprar frutas. Você podia passar na feira e comprar alguma coisa pra mim. Pouca coisa. Só banana, maçã, mamão, pera, caqui, abacate e uma rapadura caseira. Ah, traga também um queijo fresco. No fim do mês eu te pago. Ah, pode deixar na portaria que eu pego. Obrigado. Tchau, um beijão na boca.
-Tô fora, meu.
E assim eu vou levando a vida... longe de choros, de reclamos, de lamentos... longe de interesses maiores, que lamentos não amenizam o vexame de minhas quedas, as dores dos meus machucados, a angústia de meus desencontros.
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