O maior patrimônio


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Em um País onde é bastante comum a prática de falsificações de assinaturas e até clonagens de documentos para se obter vantagens ilícitas; onde políticos são flagrados recebendo propinas e guardando, despudoradamente, em meias e cuecas, gesto ético como o de um casal morador de rua que sobrevive catando sucata, serve para reforçar a certeza que tenho de que o ser humano é a coroa da criação de Deus.

O episódio que comento foi registrado pela mídia da seguinte forma: um casal que mora embaixo de um viaduto em São Paulo, é acordado por alarme intermitente. Em seguida, o marido e sua companheira se deparam com uma sacola jogada próxima de onde se encontravam, contendo mais de vinte mil reais. O dinheiro era fruto de roubo praticado por terceiros em um restaurante das imediações. Sem pestanejar, comunicam o fato à polícia e devolvem todo o dinheiro ao legítimo dono.

Importante destacar que eles, como catadores de sucatas, vivem abaixo da linha da pobreza e conseguem auferir algo próximo de vinte reais por dia. O valor encontrado representa o trabalho de 1.025 dias, ou seja, dois anos e dez meses! O comportamento ético destes catadores de sucata atraiu a atenção dos principais veículos de comunicação. O marido, entrevistado, com toda simplicidade mas com bastante fluência, revelou que ele e a esposa são do Maranhão, que não conseguem trabalho regular.

Quando indagado do real motivo que teria levado a ele e sua companheira a devolverem o dinheiro – já que na visão equivocada de muitos,achado não é roubado’ –, ele simplesmente disse ‘Aprendi com minha mãe a nunca pegar nada que é dos outros’.

Fato como esse é que nos faz acreditar que existe, sim, uma maioria de pessoas no mundo, comprometida com sólidos princípios éticos e morais, independentemente da condição sócio-econômica. O casal, talvez desconhecendo a lei, mas seguindo o instinto ético presente em todo ser humano, acabou praticando exatamente o comportamento preconizado pela lei brasileira a todos aqueles que encontram algo de valor pertencente a outrem: devem entregar à autoridade policial.

Demonstraram princípios e valores que algumas vezes sentimos falta em pessoas com formaturas e também em alguns – vários – que ocupam cargos públicos de grande importância. Para constatar e comprovar, basta consultar diariamente o noticiário dos principais veículos de comunicação de massa.

Que o exemplo sirva de lição a todos, para que no futuro não aconteça o preconizado já há bastante tempo pelo grande advogado e escritor Rui Barbosa: ‘o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto’.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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