Sensibilidade exagerada


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No ano passado, mais precisamente no começo de outubro, a Câmara foi palco de uma série de protestos contra o ‘pacotão’ que aumentava o salário de vereadores, secretários municipais, prefeito e vice-prefeito, e também contra a tentativa de se aumentar o número de vereadores em nossa cidade, projetos que inclusive foram em vários momentos discutidos a portas fechadas, mas acabaram chegando ao conhecimento da sociedade pelo trabalho da imprensa e de outros cidadãos que acompanham regularmente as sessões da Câmara Municipal.

A repercussão, obviamente, foi bastante negativa. Apesar de não haver nenhuma ilegalidade, os projetos foram percebidos por uma boa parte da população como contrários ao interesse público.

No dia da votação o ambiente estava tenso. O plenário estava mais cheio do que de costume. Dentro desse contexto, alguns vereadores se descontrolaram. Entre esses, o vereador Jépy Pereira (PSDB), defensor convicto e confesso dos aumentos, ameaçou e zombou da comerciante Viviane Araújo, responsável por uma cobertura independente dos trabalhos da Câmera, voltada para as redes sociais. Primeiro ironizou o fracasso da manifestação organizada pela comerciante, já que poucas pessoas apareceram para protestar. Depois a ameaçou dizendo que no momento certo ela receberia seu ‘troco’.

E agora, quase nove meses depois, parece que o ‘troco’ chegou. Por incrível que possa parecer, a comerciante foi acionada na Justiça para se explicar em relação ao protesto, apesar da livre expressão ser um direito garantido constitucionalmente. Segundo o vereador, ele teria se sentido ofendido com o conteúdo do cartaz que Viviane e mais duas pessoas seguravam.

O cartaz, como mostra a foto que ilustra a reportagem do Comércio desta terça-feira, 17/07, traz a inscrição ‘E$TAMO$ $ENDO A$$ALTADO$ PELOS POLÍTICO$’. Pelo que parece, o exagero está mais na sensibilidade do vereador do que no conteúdo do cartaz, que, na verdade, repete um triste chavão histórico desse país, mas que não traz ataque pessoal. Ele se sustenta, claramente, muito em função de escândalos que se repetem há séculos, permeando, em diferentes momentos, os diferentes níveis de poder do País.

O apontamento dos cidadãos que seguravam o cartaz, por mais desabonador que fosse, não estava direcionado a um vereador específico. Era genérico. Além disso, antes de atentar contra o livre direito de expressão de qualquer cidadão, o vereador Jépy Pereira deveria ter em mente que, no caso de homens públicos, por mais dura que seja a crítica de um munícipe, e não sendo ela personalíssima, cabe a eles terem couro grosso para aguentar. É um dos preços da vida pública.

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