A primeira metade de julho já se foi. E, junto com essa parte do mês, também se passou meio período das férias escolares. Isso para poucos alunos, porque grande parcela dos estudantes mirins quase não teve modificação em sua rotina cotidiana. Tudo continua igual. As atividades de lazer são monitoradas no próprio ambiente escolar.
Coitada da criança moderna. Até o direito de viver a primeira infância em contínuas férias lhe foi tirado. Além de ser o abandono de tarefas obrigatórias por algum tempo, férias quer dizer, acima de tudo, ausência daquela rigidez no horário de todos os dias úteis.
A fase melhor da criança termina com a chegada do fim da primeira infância, aos 7 anos. Ou melhor, terminava. Pois hoje em dia, ninguém vai para a escola com essa idade. Os pais de agora costumam mandar até mesmo bebês para a creche. Mas nem pense em dizer isso desta forma. Todos falam que levam os filhos para a ‘escolinha’. Chique, não?
Com a profissionalização feminina, tornou-se comum a mãe acordar o filho, com menos de um ano de idade, antes das seis horas da manhã. Por trabalhar fora de casa, muitas mulheres são obrigadas a deixar as crianças na ‘escolinha’ logo cedo. Que infância tem uma criança dessas?
Depois, quando chega o momento de iniciar os estudos na primeira série, isto é, na segunda, mas que corresponde ao primeiro ano conforme prega a moderna pedagogia, a criança já está cansada da rotina de horários. Isso, sem falar que essa tal pedagogia também apregoa a desnecessidade da escola alfabetizar, mas, ai, já é uma outra história.
Continuando a tarefa estudantil pelos anos do ensino fundamental, a criança não tira férias normalmente. Tal fenômeno ocorre porque os pais costumam contratar os serviços de colônias de férias das próprias escolas.
O objetivo dessa prática é manter os filhos ocupados. Seguindo os horários rotineiros, eles não ficam soltos por aí. Em outro ângulo das férias, as crianças que permanecem em casa durante o período de descanso escolar também não se desatrelam dos horários fixos. Todo mundo se transforma em escravo da programação televisiva. As horas das atrações são seguidas à risca. Essa prática não permite que nem mesmo os pequenos moradores dos bairros periféricos invadam as ruas à procura de brincadeiras ao ar livre. A molecada fica confinada na sala.
Outra minoria de estudantes procura as salas de cinema. Além de enfrentar longas filas para assistir a um filme dublado, come a não mais poder. Cérebro e corpo padecem ao mesmo tempo. Não há ao menos o mínimo esforço para ‘ler a fala’ dos personagens. Enquanto isso, o organismo recebe grandes quantidades de calorias em forma de pipoca e refrigerantes. Pobres crianças desta informatizada época. A engrenagem social tirou-lhes todo o prazer das brincadeiras de infância. O horário está à espera dos pequenos por toda parte. Não existe mais o transcorrer do tempo sem marcação. Muito menos aqueles momentos mágicos, criados pela própria imaginação, sem hora marcada para terminar.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
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