Aposentado cria na garagem do rancho um ‘templo do rock’


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Oziel Batista Teixeira na garagem de seu rancho Estrela da Manhã, em Peixoto, onde guarda seus discos de rock; à dir., o Maverick 1974 quatro portas que ele mantém na mesma garagem
Oziel Batista Teixeira na garagem de seu rancho Estrela da Manhã, em Peixoto, onde guarda seus discos de rock; à dir., o Maverick 1974 quatro portas que ele mantém na mesma garagem

A paisagem bucólica da região dos lagos do rio Grande remete a momentos de paz e silêncio. Quem passa pelos ranchos e sítios do local não imagina que ali, em uma área de criação de peixes, uma garagem guarda verdadeiras relíquias da música, do som pesado, inclusive. É no rancho Estrela da Manhã, na represa de Peixoto/MG, que o aposentado e criador de peixes Oziel Batista Teixeira, 59, mantém uma coleção de estrelas: os grandes nomes da história do rock n’roll.

Na última sexta-feira, 13, Dia Mundial do Rock, Oziel comemorou a data junto a seis amigos apaixonados pelo bom e velho rock, com direito a bom papo, cervejas e é claro, música. “O pessoal aqui tem de 30 a 65 anos. Vamos passar a noite ouvindo Beatles, Rolling Stones e muito rock progressivo.”

Oziel coleciona discos desde a década de 60 - época em que começou a curtir o estilo musical. Aprendeu a ouvir rock com os irmãos mais velhos. Segundo ele, a família era muito pobre e eles ouviam música naqueles rádios feitos em caixa de madeira.

“Fui aprendendo com eles. Você ouve por um tempo um determinado tipo de música e depois tem uma queda por outro, conhece outras coisas. Aí é rock, é blues, é jazz... Mas aquela escola que você gosta muito permanece.”

Um músico tem “cadeira cativa” na coleção. “Tenho 64 trabalhos de Bob Dylan. Coleciono Bob Dylan desde 1965, quando comprei o primeiro disco (Highway 61 revisited, que lançou o sucesso Like a Rolling Stone). Tenho coisas dele, principalmente em vinil, que você não encontra mais no mercado.”

Oziel tem cerca de 3.000 discos de vinil, CDs e DVDs, que foi adquirindo ao longo da vida. “Esses discos não foram comprados em discotecas de raridades. Fui comprando desde que comecei a ouvir rock.”

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A sala dedicada à música (que na verdade é uma garagem) leva o visitante a um mundo completamente diferente dos morros e do rio que circundam o rancho. Vitrola, caixas de som, TV LCD e um DVD esperam pela boa música. Pneus empilhados formam uma mesa com assento em vidro. Há também sofás brancos com almofadas coloridas.

O piso é todo pintado de vermelho, com paredes brancas e prateleiras repletas de vinis de bandas e artistas como Lawrence Welk, Dire Straits, Metallica, Supertramp, Queen, Led Zeppelin, Bee Gees, Mick Jagger, Erasure, Genesis, Nazareth, Jeff Beck, The Police, David Bowie, John Lennon, George Harrisson, Pearl Jam, entre outros.

“As grandes bandas estão aqui”, afirma Oziel. Do time dos “brazucas”, ele possui discos de artistas como Ira!, RPM, Nenhum de Nós, Biquini Cavadão, Kiko Zambianchi, Rita Lee, Cássia Eller e da banda Blitz.

Enquanto mostra a coleção, Oziel vai falando dos músicos que mais admira. “Acompanho muito a carreira de George Harrison [dos Beatles]. Eric Clapton, acredito que eu tenha todos os discos. Jimmy Hendrix, tenho uma das maiores raridades”, diz, ao apontar o disco Purple Haze. “Depois dele (Hendrix), um dos melhores guitarristas que considero é o Buddy Guy. Um músico de primeira grandeza”, afirma.

E é ao som de Buddy Guy que Oziel confessa ser um grande amante do blues também. “Curto de blues a jazz. Minha música do momento é o blues. Miles Davis, BB King, Johnny Hooper, Buddy Guy, Eric Clapton, só fera mesmo”, comenta.

Além das prateleiras, ele guarda espaço especial nas paredes para discos clássicos (e raros) emoldurados: o lendário Abbey Road dos Beatles (1969); Flashpoint, do The Rolling Stones (1991); As Quatro Estações, do Legião Urbana (1989); Highway 61 Revisited, de Bob Dylan (1965); Welcome to my World, de Elvis Presley (1977).

RAUL SEIXAS
Pink Floyd, Raul Seixas e Eric Clapton também têm lugar especial, assim como alguns representantes da MPB e suas obras censuradas, como Chico Buarque, Erasmo Carlos, Fagner, Caetano Veloso e Zé Ramalho.

“Minha veia é o rock e o blues. Mas tenho muitas raridades em MPB também, como Noel Rosa, Pixinguinha, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, todos adquiridos na época de lançamento. Tem disco aqui de 45 anos”, explica.

E Oziel não parou no tempo. A música contemporânea também é encontrada nas estantes da garagem do rock. Susan Tedeschi é um exemplo que o amante do rock exalta com entusiasmo. “Essa menina é um show. Ela esteve no festival SWU (Starts With You) em Paulínia no ano passado.” Ele ainda mostra trabalhos de Robert Craig, Nando Reis, Adele, Lenine, Zeca Baleiro e John Mayer.

Quando perguntado sobre seu artista preferido, sobre a melhor banda de todos os tempos, Oziel não tem dúvidas: “Os Beatles são imbatíveis. Beatles, Pink Floyd e Led Zeppelin são os meus preferidos, nesta ordem.”

MAVERICK
Para completar a decoração da garagem, um carro que tem tudo a ver com o rock: um Maverick 1974 azul, que combina com o portão da mesma cor. De acordo com Oziel, o veículo quatro portas só tem mais seis exemplares iguais no mundo todo.

“Comprei de um amigo em Barra Bonita/SP e o restaurei.” O investimento foi de R$ 40 mil. O carro está à venda? A resposta é imediata. “O Maverick não sai daqui.”

Oziel mora em Peixoto há três anos. Antes, viveu 35 anos em Ribeirão Preto, mas nunca tinha montado uma sala específica para expor sua coleção. Quando se mudou para o rancho, a ideia surgiu. “Esse material estava guardado em uma sala comum. Sempre que vinha um amigo, um turista, eu queria mostrar esse trabalho. Então veio a ideia de montar uma sala especial para isso.”

A transformação da garagem em templo do rock custou cerca de R$ 40 mil. Para Oziel, o investimento é mais que válido. “A intenção é que as pessoas venham conhecer e possam ouvir música, curtir mesmo. Não podemos ter um acervo desses só para nós mesmos usufruirmos. Há muita gente que vem para cá já sabendo que tenho esse material. Eles pedem para ver. E tenho o maior prazer em mostrar”, diz.

Avesso ao download de músicas, Oziel tem muita dedicação aos discos. “Não baixo músicas na internet. Hoje tem essa ‘praga’ do pen drive em que você coloca tudo num lugar só. Mas o gostoso mesmo, para mim, é pegar o disco, manuseá-lo e colocá-lo para tocar. É um prazer, uma coisa rara. Está ficando difícil agora que os artistas não vendem mais disco, então isso é cada vez mais raro. É um hobby que te dá prazer. E é caro? Não. É um hobby barato, mas que leva tempo.”

O “cinquentão” do rock não sabe e nem quer saber quanto vale sua coleção. “Isso aqui tem valor sentimental. Para mim é muito bom vir aqui, fechar a porta, colocar uma música e literalmente viajar.”

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