A sopa no pão


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‘E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.' - Albert Camus (1913-1960), ficcionista e dramaturgo

O leitor Carlos Lellis enviou e-mail ao jornal pedindo esclarecimento público para uma informação equivocada do texto gourmet do último domingo, nesta página que assino. Mea culpa, Carlos: Pedro I, que gostava do doce de cidra ralada com rapadura e gengibre era pai (e não filho) de Pedro II, que se amarrava em doce de figo em calda. Restabelecida a verdade, me pergunto que peça foi essa pregada pelo meu cérebro, pois tenho conhecimentos mínimos de história para não confundir as relações de parentesco desses dois Alcântaras de Orléans e Bragança, sob cujos governos manteve-se nosso Brasil de 1822 a 1889, da Independência à República.

Acredito que a responsabilidade seja mais da memória da criança que fui e custou a entender que o velho de barbas brancas e ventre rotundo, na ilustração dos livros de história do curso primário, fosse filho do jovem esbelto e de negros cabelos, que o quadro sobre o Grito do Ipiranga nos mostrava erguendo uma espada em cima de cavalo nervoso. Complicado compreender aquilo, o velho filho do moço. As informações posteriores não elidiram a percepção inicial que, de repente, rompendo alguma vigilância fragilizada da razão, burlou o muro da lógica e reapareceu entre ovos, açúcar e leite condensado; coco ralado e bom-bocado.

Ainda no viés da abordagem dos leitores, de que gosto muito, Neide Augusta Pereira pede uma receita de doce de abóbora com coco que possa ser cortado em pedaços; Valdecides Baptista quer saber como fazer bolo de rolo em formato mini; Pedro Miguel gostaria que eu resgatasse a receita do tal furrundum que, segundo ele, deve ser parecido com o que sua avó fazia em tacho de cobre e oferecia para toda a família. Vão nas próximas edições, queridos leitores. Porque hoje atendo à demanda de Cíntia Amélia de Souza, que em meados de maio me solicitou uma sopa dessas que são colocadas dentro de pão, para servir no inverno. Se demoro mais, vai-se embora o frio e o alimento perde um pouco o seu contexto, que resgata tempos imemoriais. Sopa é comida de conforto, e em algum lugar de nossas mais longevas relembranças associa-se ao grande caldeirão sobre labaredas, ao redor do qual o clã se sentava depois de ter trazido da floresta os ingredientes a serem cozidos no caldo primordial. Então, vamos lá. Para encher cumbuca, tigela, prato ou pão, a sopa de cebola fica ótima.

Comece pelo pão. Corte uma tampa, retire o miolo, leve ao forno quente para firmar por cinco minutos. Corte as cebolas em quadradinhos, refogue no azeite e manteiga, deixe amolecer. Junte o caldo de legumes e espere ferver durante mais dez minutos. Tempere com pimenta-do-reino branca ou noz-moscada, se gostar. Eleja um dos dois temperos, pois juntos não combinam. Dissolva o pó para sopa no leite e agregue à mistura de cebolas, mexendo sem parar até engrossar. Com uma concha, encha a cavidade do pão, cubra com parmesão ralado e leve ao forno para gratinar. Cuidado com o sal: o caldo de legumes, o pó para sopa e o queijo já o contêm em quantidade suficiente. Portanto, não salgue. Sirva ao retirar do forno. Os ingredientes listados preenchem dois pães italianos grandes ou quatro pequenos, tipo nino.

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