A eleição de prefeito e vereadores mexe de perto com os eleitores. E, mais ainda, com os candidatos. Os postulantes a cargo executivo precisam sair da cômoda rotina nesta época de campanha. Devem ir para as ruas, praças e outros logradouros de aglomeração pública. Torna-se necessário que cada um vista a máscara adequada à ocasião.
O desiludido eleitor passa quase quatro anos maldizendo os candidatos que receberam seu voto na eleição passada. Verifica que o vereador foi omisso na Câmara. Isso quando não protagonizou alguma trapalhada durante as sessões. Quanto ao prefeito, apesar do alto índice de aprovação nas pesquisas, também deixou a desejar em alguns aspectos.
Faz tempo que o desapontado eleitor só pensa em cassar o voto. As atitudes desabonadoras dos políticos em ação são inumeráveis. A melhor saída então seria anular o voto em outubro. No entanto, eis que surge a figura do candidato caçando votos na rua.
Cada qual de seu canto veste a máscara que lhe convém. O cético eleitor estava tranquilo na antiga Praça D. Pedro II na manhã do último sábado. A intenção era comprar uma mercadoria barata na banca de algum camelô. De repente, não mais que de repente, surge uma dupla afável em sua frente. Um pega na sua mão. Outro bate em seu ombro ao mesmo tempo.
Sorrisos largos se espalham ao redor. O antes ignorado eleitor fica perplexo ao ser reconhecido. Diante da máscara sorridente da dupla de candidatos a prefeito e a vice, o eleitor já se sente lisonjeado. Não pensa mais em cassar o seu valioso voto no dia da eleição. O ato de caçar votos dos candidatos suplantou a sua incredulidade.
Feita as pazes com a política, o agora nobre eleitor continuou o seu caminho. Depois de atravessar o calçadão da Marechal Deodoro, começou a ouvir forte barulho musical. Na frente da comitiva, seguia um homem de branco, usando chapéu-coco. Não fosse esse último detalhe, juraria se tratar de um médico. Ainda bem que o desfile estava ali na Praça Central. Se fosse lá, na feira dos camelôs, em frente à Santa Casa, coitado dos pacientes.
Logo o eleitor percebeu que o homem de branco era médico mesmo e candidato também. Na sua conversa, enfatizou o cuidado que vai dispensar à saúde, à educação e, de quebra, ao trânsito. Isso bastou para balançar a cabeça do eleitor. Em quem votar agora? A dúvida está instalada no seu imaginário. O melhor era ir para a feira-livre. Resta ainda comprar a mistura de domingo.
Na Estação, o eleitor resolve comer um pastel antes de ver legumes e verduras. Não é que da fila para pagar o salgado, divisa dois homens comendo pastéis. De onde os conhece? Busca na memória, olha para os dois ali sentados. Até recebe um acanhado aceno de mãos. Lembra-se. Não faz muito tempo, viu esses dois em alguma repartição de saúde.
Puxa! Essa dupla era diferente, lá na repartição. Tinha uma carranca daquelas. Parece que nem gostava de ouvir quem chegasse perto. Agora, está rindo. O que será que aconteceu? Que milagre foi esse? Santa eleição!
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
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