O Brasil sempre foi um país essencialmente católico. Culturalmente fundados pelos jesuítas, crescemos sob a imposição de seus mandamentos e de suas verdades irrefutáveis, a despeito das crenças de índios e negros que foram aos poucos sendo assimiladas e transformadas pelo catolicismo.
Em 1872, quando foi feito o primeiro registro censitário do país, 99,72% de nossa população livre se declaravam católicos. Mas com as transformações que o país foi sofrendo ao longo dos anos, o advento da República, a separação entre igreja e estado, a industrialização, a liberalização dos costumes e o desenvolvimento tecnológico esse número começou a cair bem lentamente, o que aos poucos foi abrindo espaços para o crescimento de outras crenças religiosas.
Nas duas últimas décadas do século passado, por exemplo, o catolicismo experimentou uma queda acentuada, perdendo muito espaço para os grupos evangélicos pentecostais, que pareciam apresentar um discurso mais apropriado ao momento econômico e social vivenciado na época.
Agora, mais recentemente, dados do Censo de 2010 divulgados pelo IBGE mostram que o mapa das religiões alterou-se ainda mais. A população católica recuou mais um pouco e os grupos evangélicos continuaram sua ascensão. Aumentou também o número daqueles que se declararam sem religião e a quantidade de pessoas que se dizem espíritas experimentou uma nova expansão.
Para se compreender melhor essas mudanças, no entanto, talvez seja preciso ir além daquilo que os números deixam transparecer, buscando concentrar-se com mais atenção em suas entrelinhas, ou seja, nas relações sociais, culturais e econômicas que os envolvem.
Se considerarmos o secular sincretismo religioso brasileiro, é difícil definir precisamente um católico, espírita, evangélico ou sem religião. Em nosso país, sempre foi muito comum um católico experimentar alguns passes em cerimônias espíritas ou em rodas de candomblé, como também não é difícil achar um agnóstico ou ateu em algum evento religioso.
Já nos tempos do Brasil colônia, chamava a atenção dos viajantes europeus que por aqui passavam a exagerada flexibilização dos rituais do catolicismo. Para vencer a resistência dos povos a serem catequizados, os padres da época permitiam certa intromissão das culturas pagãs nas cerimônias católicas, o que às vezes desagradava à cúpula da igreja, escandalizava os viajantes, mas acabava facilitando a transmissão da mensagem.
Essa mistura de rituais, obviamente, criou raízes em nossa cultura entronizou-se na alma do brasileiro, além de ter minimizado a rigidez de cada uma dessas religiões.
Hoje, com mais liberdade de culto e com mais informação, muita gente parece transitar tranquilamente entre essas várias crenças, buscando encontrar paz de espírito e respostas a seus anseios em uma ou mesmo várias delas, sem medo ou receio de qualquer tipo de penalização que possa vir dos homens ou mesmo do além.
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