Estamos na era das afirmações. As pessoas querem se apresentar, mostrando o que fazem: sou médico, sou engenheiro, trabalho numa multinacional, organizo uma ONG, faço pesquisas sociais, dou cursos, ensino dinâmicas de grupo, escrevo para a revista, sou chef de um restaurante, dou aulas, sou advogado... Queremos todos nos afirmar socialmente, revelando aos outros os papéis que exercemos. Aprendemos a ser positivos e não titubear ao falar de nossos valores pessoais. As entrevistas nas grandes empresas para os candidatos que disputam uma vaga no mercado não admitem hesitação. Você tem que ser firme e definido, elas nos dizem. Aos olhos dos outros queremos ser sempre bem resolvidos, prontos para solucionar problemas e pobre daquele que demonstrar fraqueza, dúvidas ou insegurança.
Na mídia, também as propagandas incentivam o pensamento pronto: esse é o melhor carro, a loja que vai fazê-lo feliz, o melhor molho para o macarrão e a ótica mais adequada para comprar seus óculos. A nós, tudo nos parece já completamente decidido. Não é preciso mais procurar, pesquisar: o que havia a fazer já foi feito e está dito o que é melhor.
Os adolescentes de hoje não têm mais garra para buscar, querer, descobrir... Eles estão enfastiados com tanta informação manipulada e cuidadosamente organizada para agradar. Como saber o que eles próprios desejam?
Acho que precisamos desconfiar de tantas certezas que nos são impingidas. Quem somos nós por trás de tantos rótulos? O que fazemos, quando sozinhos com nosso travesseiro, olhamos para essas máscaras que vestimos todos os dias? Em um grupo, não podemos falar aquilo que pode destoar do pensamento da maioria. E qual é esse pensamento? Apenas uma repetição cansativa das mesmas afirmações sociais que percorrem os mesmos caminhos.
‘Fica o dito e redito por não dito’, nos diz Chico Buarque. Penso que está na hora de buscar o não dito. De nos aconselharmos com aquilo que não é falado, mas é sentido. Quem sabe nos deslocarmos para olhares mais profundos, buscando o que em nós existe, mas que não tem espaço para se manifestar. Falo é da nossa verdadeira essência, do ser espiritual que habita em nós. Ao brilhante Teilhard de Chardin foram atribuídas as sábias palavras que não somos seres humanos vivendo experiências espirituais; somos seres espirituais vivendo experiências humanas. E então o foco muda, se modifica na semente. O dito e redito já cansou, já se desgastou. Onde chegaremos caminhando por essa estrada tão horizontal, seca e sem graça? O que nos espera lá frente? Mais afirmações que vêm de fora? Mais certezas que não são nossas? Ou cada vez menos conhecimento das próprias dúvidas? ‘Taí! Nosso mais-que-perfeito está desfeito...’, conclui o nosso Chico...
Hoje, minha intuição me revela que no mistério das perguntas e respostas, o que busco é conhecer o Sagrado. Verticalizo-me. Percebo que vozes iludidas, perdidas e desgostosas fazem barulho incessante. A mente pergunta e essas vozes têm respostas superficiais. No silêncio, porém, o sutil se manifesta. O coração quando pergunta só quer saber a verdade. O momento é de sentir-se pertencido, mas não às pobres verdades sociais. Um novo fôlego tem que surgir para regar o recomeço.
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