Não conheço Belém e, até bem pouco tempo atrás, a capital do Pará não figurava na minha lista das dez mais. Então, comecei a ler sobre Belém, justamente porque a sua culinária desponta de forma marcante. Texto vai, texto vem e me acho apaixonada pela cidade. Normalmente, ler sobre o lugar me faz ver melhor do que fotos, e as impressões que li de Mário de Andrade, escritas em 1927, foram mais ou menos como petiscos crocantes para a minha fome. Devo transcrevê-las aqui:
“ (...) Porém, me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrasse em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí, você, que conhece o mundo, conhece muita coisa melhor que isso, Manu?”.
A carta de Mário de Andrade era endereçada a Manuel Bandeira.
Eu conheço os deliciosos sorvetes do Pará, são lindos em cores vibrantes, roxo açaí, amarelo taperebá, branco cupuaçu, palha cremoso, castanha do Pará, e aí se vão - são mais de 80 sabores. A principal sorveteria que os produz em Belém é tão famosa a ponto de se transformar em destaque turístico. A receita é antiga e integra a história da cidade - fizeram suspirar Mário de Andrade em 1927. O curioso é que, no Pará, o sorvete era vendido inicialmente nos bares, ou melhor, nos botequins onde mulheres “de bem” não eram bem vindas. Portanto, o sorvete era feito por homens e para os homens. Mas foi logo descoberto pelas mulheres que, na ânsia de degustar o doce, reivindicaram e conquistaram o direito legítimo de frequentar tais casas.
Nem só de sorvetes fez-se a fama do Pará. Falei com vocês, dia desses, sobre o famoso chef de cozinha Paulo Martins, falecido, que deixou um legado de receitas e amor a Belém e sua natureza farta. Também por isso, uma meia dúzia de novos chefs vem redescobrindo a fartura exótica desse Estado. Em destaque, o jovem Thiago Castanho, proprietário dos restaurantes Remanso do Peixe e Remanso do Bosque. Nos dois restaurantes, o cardápio é uma ode à cozinha do Pará, mas, claro, com aquele charme adicional. Os peixes são as grandes estrelas do cardápio, já que abundam por ali. E dentre todas as estrelas, sem dúvida, o sol é representado pelo pirarucu. Faço aqui um aparte: temos muita vontade de oferecer aos nosso clientes esse famoso, quase lendário, peixe. Infelizmente, estamos muito longe do seu habitat. Conseguimos descobrir um fornecedor, eles vendem o peixe inteiro. Mas vejam, eu precisava contar isso, o peixe inteiro de rabo a cabeça - e olha que a distância nesse caso é grande -, custa em média R$ 834,00! Achei
isso maravilhoso: tanta coisa besta custa R$ 834,00, por que um peixe lindo e enorme desses não poderia custar?
Voltemos ao Pará: o chef Thiago comanda seu primeiro restaurante desde 2007, muito embora a casa já fosse conhecida na alcunha de seu pai. Caso clássico de amor que passa de pai para filho. Há várias receitas famosas, cujo perfume chega até aqui: o filhote cozido no caldo do tucupi (caldo extraído da mandioca brava) com jambu (folha), mix de pimentões, tomates e camarão rosa; o pirarucu defumado e servido no leite de coco; o tiramisu (doce italiano que leva queijo mascarpone) recebeu uma releitura, entra o queijo Marajó e a polpa de outra fruta exótica, o bacuri.
Estamos à margem desse Brasil que poucos foram conhecer, e trazê-lo até nós custa muito caro, como é o caso dos peixes da bacia amazônica. Por isso, a exploração das regionalidades é o que de melhor os chefs da nova geração vêm fazendo. E se não podemos, por exemplo, nos refestelar com o queijo de Marajó, podemos saborear o delicioso queijo canastra.
Por ora, fico aqui a sonhar e continuar a ler Mário de Andrade:
“Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim”.
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