O uso de siglas na vida moderna virou necessidade ou praga, depende de como se olha para isso. Tudo tem uma sigla: o Comércio virou GCN, por exemplo. Tem gente que é mais conhecida assim que pelo nome inteiro, como o FHC e o PC Farias de saudosa memória, ou ainda o técnico de futebol PC Gusmão. Pior são aquelas que nos acostumamos por muitos anos, como INPS, que depois alguém teve a idéia de mudar para INSS só para nos azucrinar, embora o conteúdo seja o mesmo e as reclamações contra o valor das aposentadorias idem.
Algumas alcunhas são engraçadas, como a de um grupo de rapazes que frequentava as brincadeiras dançantes da AEC, os GCs. Na rampa do salão de baile do clube, eles eram ridicularizados pelas costas como os Guarda-Cabaços pela moçada, pois andavam junto com as meninas riquinhas mais bonitas e afastavam os mais intrépidos de avançar sobre elas. Hoje, moleques são chamados de BV (Boca Virgem), que não tem nada a ver com a financeira que ostenta sua publicidade pelas ruas comerciais das cidades brasileiras.
Em Ribeirão Preto, nos anos 50 e 60, era comum ouvir comentários sobre as CJ (Caça-Jalecos), meninas que ficavam à caça de um estudante de medicina da USP, o bom partido da época. Hoje é bem mais difícil identificar um bom partido desse jeito, pois o jaleco foi proibido fora dos hospitais e, tirando os médicos que se dedicam às cirurgias plásticas, o restante vive de vários empregos no serviço público ou atendendo planos de saúde. Tem o temido RH, que pode te mandar um repentino aviso-prévio de demissão. PS pode ser pronto-socorro ou puxa-saco do prefeito com tempo para escrever cartas à imprensa.
Existe também a MC - Maria-Chuteira, substituta da MG - Maria-Gasolina, que circulava com os rapazes que diziam que “eu não sou feio, tenho um carro”. A Maria-Chuteira, claro, nunca pisou num gramado e nem sabe distinguir a diferença entre um escanteio e um impedimento, mas adora um jogador de futebol. Na evolução darwiniana das espécies, o ancestral delas são as “groupies”, meninas que acompanhavam as bandas de música no começo da história do rock and roll. Foram substituídas pelas tietes de hoje. Mas o espírito é o mesmo. O resultado também.
É por causa da tietagem que recomendo a leitura de “As flores do tenentismo”, divertido romance escrito por Sérgio Bandeira de Mello, que vem a ser um jornalista amigo do Fred e da T., minha amiguinha dos tempos do Coronel Francisco Martins e do IETC (mais uma sigla), que me deram o livro de presente. É uma engraçada história sobre um grupo de amigas normalistas que querem casar com um militar fardado e que vivem tietando as paradas e desfiles cívicos para ver as tropas. Pelas tramas e enredos da história, acabam realmente envolvidas com um fardado, porém comunista e motorneiro de bonde, numa sátira à história do país nos tempos de Getúlio Vargas.
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